Vida agitada na Diocese

14 Nov 2017 / 02:00 H.

O padre da paróquia do Monte assumiu a paternidade de uma criança e o assunto ganhou destaque nacional e até dizem que já está na agenda do Vaticano. O assunto é importante, principalmente se o situarmos no domínio da legitimidade para o exercício do sacerdócio e não tanto se os padres devem ou não casar-se, pois quanto a isso, provavelmente todos concordamos que sim. Mas esse é um tema da igreja católica que no seu direito canónico, pode decidir alterar ou manter a obrigação de celibato. Já quanto à legitimidade para vestir a batina, uma coisa é um padre assumir muito antes de “pecar” que é contra o celibato, outra coisa é um padre estar mudo e calado quanto a esse voto e só após “morder a maçã” é que o contraria, ferindo de morte um dos seus votos, o qual exclui os “prazeres terrenos”. A legitimidade para pregar educação moral e religiosa fica seriamente afectada. Quanto ao invólucro desta matéria, a religião, sempre tive muitas dúvidas quanto à sua necessidade e importância na vida do ser humano. Pelo menos no sentido etimológico da palavra, do Latim “religio” – (“prestar culto a uma divindade”, “ligar novamente”, ou simplesmente “religar”). Já não tenho qualquer dúvida quanto à importância e necessidade da espiritualidade no dia-a-dia da humanidade. É certo que não podemos subestimar o contributo das religiões na ordem e disciplina que a humanidade entretanto ganhou, já que a mesma encerra um comportamento ético e moral que é (foi) determinante no equilíbrio da sociedade. Está no entanto por avaliar o sofrimento causado pelos silêncios impostos e voluntários que semearam o obscuratismo nesse caminho. Não é necessário ser dono de elevado espírito crítico para identificar uma série de equívocos na maior parte da religiões, com particular destaque nas ocidentais, assentando o seu domínio em dogmas e numa estrutura organizacional hierarquizada, que a corrói internamente, descredibilizando a sua mensagem e particularmente os seus membros de hierarquia elevada. O ser humano tem de facto de “religar-se”, mas a si próprio, isto é, tem de procurar em si e encontrar a sua essência como passaporte para a transcendência, podendo concluir, ao fazer essa viagem, que a estação de destino é aqui no planeta terra. Uma possibilidade muito forte é o ser humano não dar conta do que o que procura está já junto dele, ou melhor, está nele. A verdade é que do mesmo modo que a religião pode ser de fundamental importância para alguns seres humanos, dando sentido à sua vida e encontrando um significado para a sua existência, pode também provocar uma certa alienação da realidade na qual o ser humano está inserido, particularmente naqueles menos informados e mais influenciáveis. Esta realidade é não só gravisssíma, como sustentatória desse imenso mar de opacidade que caracteriza de uma maneira geral as instituições religiosas. É curioso o facto de hoje olharmos para as civilizações anteriores, com alguma arrogância pelas suas crenças, algumas delas nos dias de hoje absurdas, nomeadamente por acreditarem em vários deuses porque até então nenhuma instituição havia imposto a crença num Deus único. Atribuímos essas crenças à falta de esclarecimento, mas seria prudente e racional, imaginar as civilizações futuras estudando a época que estamos a viver. Provavelmente diriam: Impressionante, essa civilização que foi à Lua, que enviava naves não tripuladas para Marte, tinha uma tecnologia para a época, de ponta (embora mal aproveitada), fazia “milagres” na medicina, tinha companhias de seguros, etc, etc, e ainda acreditava num Deus? Que absurdo! Por fim a pergunta que se impõe é: Ainda há dúvidas quanto à existência de “agitação” nas dioceses?

Fernando Rodrigues