“UMa” escolariza e “RAM” empacota e manda para fora...

14 Out 2018 / 02:00 H.

Dizem-me que são cerca de meio milhar, o número de alunos que anualmente saem da UMa - Universidade da Madeira com o 1.º ciclo (licenciatura) concluído e logo o seu longo e penoso calvário tem início na procura de um primeiro emprego. Muitos “acabam os cursos” na ilusão de que irão trabalhar na área que estudaram e um elevado número desses, desafortunamente, acaba ao balcão de uma loja de comércio num centro comercial qualquer ou na caixa de um supermercado de uma grande superfície. É certo que as licenciaturas já não são o que eram em vários aspectos, desde logo a possibilidade/necessidade, por via da rápida transformação da sociedade, de se ter que desempenhar trabalhos diferentes ao longo da vida activa e que a “especialização universitária” numa área não assegura, até à garantia de outrora de que a posse de uma licenciatura era posto de trabalho garantido, e até mesmo, a própria qualidade dos professores terá diminuído, pois o grau de exigência para o exercício da função não conseguiu combater, como em tantas outras, a massificação da profissão. A verdade é que na actualidade, a aquisição de saberes tem origem em várias fontes, diminuindo a importãncia da função do professor como fonte e arquivo de saber, mas do ponto de vista formal, a aquisição da habilitação universitária continua, evidentemente, a ter importãncia. Mas tal ocorre, e não querendo generalizar a todas as áreas do saber, mais no âmbito institucional do que no domínio substancial. No entanto, esta geração debate-se com o complicado problema de não encontrar emprego em consonância com a escolaridade obtida (não lhe chamo qualificação, como hoje se insiste em chamar, porque isso não é na escola tradicional que se adquire) e a sua sorte é ser empacotada em estágios profissionais mais para passar o tempo do que para outra coisa, obtendo uma pequena bolsa de transporte e alimentação ou, conseguirem através de outras medidas, um emprego com um horizonte temporal pequeno. Têm ainda a opção dos chamados “recibos verdes” (e toda a precariedade que lhes está associada), que antigamente eram a excepção e hoje generalizaram-se. A oferta dos chamados empregos de qualidade, que garantem contratos de trabalho sem termo, com todos os direitos e obrigações inerentes, contam-se pelos dedos. Por fim a opção que é colocada em último lugar, mas que se tem tornado o caminho a seguir por inúmeros jovens madeirenses que finalizam os seus estudos universitários: emigrar. Ora no caso da RAM, emigrar era no século passado normal, exactamente pela baixa escolaridade dos seus cidadãos e uma economia regional apática, em grande parte causada pelo desinteresse e abandono do estado central. Mas entretanto, dizem, o figurino mudou. Hoje a Madeira, dizem, é uma região desenvolvida, com uma infra-estrutura aeroportuária internacional, com uma rede viária que circunda e atravessa a ilha, com um centro internacional de negócios, que tem uma zona franca industrial, um registo internacional de navios e uma praça de serviços internacionais. Dizem também que o sector do turismo na Madeira é uma actividade económica desenvolvida e profissionalmente adulta. Onde estão então os milhares de empregos que a Madeira transformada deveria ter criado? Onde está o nível médio salarial aceitável, por exemplo na hotelaria, que a excelência de serviços prestados ao turista deveria ter originado? Digam-me por que raio é que os jovens têm de emigrar e os poucos que ficam auferem salários baixos e emprego pouco qualificado? A resposta é simples: quando se é pequeno é má estratégia seguir o modelo dos grandes, pois normalmente fica-se refém de alguém.

Fernando Rodrigues 2018