Um madeirense em Cracóvia

11 Jan 2018 / 02:00 H.

A vida guia-nos em direções imprevisíveis. Antes de sair de Portugal, nunca tinhaponderado viver na Polónia, um país que, além dos campos de concentração, pouco me sugeria. Ainda assim, passaram-se já cinco meses desde que a cidade de Cracóvia me acolheu. Encontro-me agora numa posição de reconhecer que esta não é de todo uma terra tão mórbida como a nossa imaginação, alimentada pelas chagas da história, nos pode levar a crer.

Atualmente, a Polónia é um país de eleição para emigrantes de todo o mundo. Por ser económico para empresas multinacionais edificarem aqui os seus escritórios, existem muitos empregos disponíveis para falantes nativos das mais variadas línguas, incluindo Português. Porém, como trabalhar num escritório nunca foi algo que me atraísse, comecei a procurar alternativas. Com alguma sorte e persistência, vim a descobrir que há mais polacos interessados em aprender português do que eu tinha imaginado e relativamente poucas pessoas dispostas a ensiná-lo. Visto que eu não domino o idioma local, recorri ao inglês para dar aulas privadas de língua portuguesa, o que tem suscitado bons resultados.

Embora os sorrisos não pareçam abundar pelas ruas, ameaçados pela pressa e pelas preocupações profissionais, tenho a sorte dos ter alunos simpáticas e acolhedores. Além da seriedade nos rostos, é cada vez mais comum encontrá-los cobertos com máscaras anti-poluição, especialmente no pico do Inverno, altura em que os habitantes recorrem ao carvão para aquecer as suas casas. Porém, nos mercados ao ar livre a azáfama da vida citadina é contraposta pela calma e boa disposição dos agricultores que vendem as frutas e legumes que eles próprios cultivam. Além disso, a gastronomia polaca é muito rica. A quantidade e variedade de restaurantes que esta cidade tem para oferecer constituem uma constante tentação para qualquer paladar.

Cracóvia está repleta de belos locais para visitar, desde os edifícios históricos aos parques naturais, passando pelo majestoso rio Vístula que rodeia a cidade, dividindo-a tanto quanto a une. A sua oferta cultural é vastíssima, não só a nível de museus, como também de cinemas, teatros, concertos e outros espetáculos de vanguarda. É raro o dia em que a agenda cultural desta cidade não tem algo para nos oferecer, o mais difícil é ter a disponibilidade para participar em todos os eventos que atraem a nossa curiosidade. Sim, o Inverno em Cracóvia é severo, mas a cidade é ainda mais sedutora quando coberta de neve e os estabelecimentos tornam-se ainda mais acolhedores quando estamos cientes do frio que nos aguarda lá fora.

Por mais imprevisível que esta vida seja, há sempre muito que aprender durante cada paragem da nossa jornada. O mundo é vasto e Cracóvia é apenas um ínfimo ponto deste enorme planeta. E este é apenas um testemunho da humilde experiência de um madeirense que, guiado por forças maiores que ele, veio a desembarcar em terras Polacas durante uma das inúmeras paragens da sua jornada.

Luís Filipe Olival
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