Um homem (só) no Parlamento Europeu

09 Set 2018 / 02:00 H.

No passado dia 2 de setembro, publicou o DN um artigo de opinião da Sara André com o título ‘Mulheres no Parlamento Europeu’.

Li-o com o interesse que o título me despertou.

Indo directo ao assunto, a Sara começa por se referir à “porcaria” que acontece na escolha de candidatos do PSD.

A “porcaria” da minha escolha em 2009 já foi escrita. Para quem não a conhece, recomendo a leitura do livro “Relatório de Combate”, de Alberto João Jardim, onde poderão encontrar um capítulo inteiro com o relato privilegiado e na primeira pessoa de um dos protagonistas, bem como um episódio - até então desconhecido e que o próprio entendeu contar - bastante revelador da minha ingenuidade e de como um gesto decente em política pode ser encarado como sendo próprio de um extraterrestre.

A Sara elogia a Cláudia Aguiar e recorda “todos os “grandes” nomes que por lá andaram”, para concluir “que afinal não lhe chegam aos pés no desempenho”.

Presumi que a parte dos “grandes” nomes não me era dirigida, até porque a minha insignificância é facto que não carece sequer de demonstração, bastando apenas alegar a minha actual irrelevância no espectro partidário. Mas depois o choque e o pavor tomaram conta de mim: antes das actuais só havia um deputado, e por coincidência maldita, era eu. Os outros responderão por eles.

O artigo da Sara está infelizmente pejado de incorreções e omissões típicas de quem fala superficialmente de temas que não domina, pecado cada vez mais frequente quando se usa a retórica fácil dos lugares comuns.

Primeiro, não há nenhuma eleição do ‘melhor’ deputado do ano. Coisa diferente, há é um conjunto de distinções sectoriais, que correspondem às áreas das múltiplas comissões parlamentares. Ao contrário do que afirma, não só não é inédito, como nos últimos anos vários MEP portugueses foram distinguidos: Graça Carvalho, Marisa Matias, Capoulas Santos, Ana Gomes, Edite Estrela e José Manuel Fernandes.

A votação é feita entre pares, o que significa que o resultado é influenciado pela própria composição política do PE: o grupo político e o país de onde provêm os candidatos.

Para tentar explicar: por exemplo, em 2013, os nomeados para o prémio de MEP do ano na categoria de ‘Desenvolvimento Regional’ eram Danuta Huebner, polaca, do Grupo PPE, ex-comissária regional do desenvolvimento regional e na altura, a presidente da comissão parlamentar do desenvolvimento regional no PE; Marie Thérese Sanchez Schmidt, francesa, do Grupo PPE; e o Nuno Teixeira, português, do Grupo PPE.

A probabilidade de vencer esta categoria era a mesma de um padre de paróquia ganhar uma competição a um bispo e ao Papa. A distinção, neste caso, modéstia à parte, foi a nomeação em si mesma.

Quanto ao “desempenho”, recorro a uma frase de uma campanha publicitária de um automóvel: “o tamanho não importa, é a performance que conta”. Para memória futura, já que resolveu lembrar o “ranking” dos deputados portugueses, deixo o meu link para o efeito (http://www.mepranking.eu/7/mep.php?id=96974) e uma vez que escolheu o critério das declarações de voto escritas, no meu caso e ao fim do mandato, foram 1639.

Como a Sara afirmou, a comparação dos mandatos das actuais deputadas é um exercício difícil por se encontrarem em comissões parlamentares distintas. Concordo.

O mesmo raciocínio devia fazer quando se referiu pouco subtilmente aos “que por lá andaram”.

Estamos novamente em final de mandato no PE e parece já ter aberto a época de caça para as próximas listas de candidatos. Percebo a lógica e o timing, não entendo o alvo. O tiro cai na água.

Pela minha parte, tenho a consciência tranquila do mandato que fiz e orgulho no trabalho que deixei.

Direi mais: aproximando-se o final do mandato, há um novo pacote legislativo para o próximo período 2021-2027 em negociação.

Aguardemos pelo mesmo e faça-se então a comparação entre o anterior, o que findará e o que aí vem. Façam-no, a título ilustrativo, com as taxas de co-financiamento.

Talvez então se comece a ter uma noção da utilidade de um mandato no PE.

Por mim, estou à vontade com todos os exercícios de comparação que queiram fazer, seja antes ou depois.

Moral da história: para se elogiar alguém não temos necessariamente de o fazer maldizendo os outros. Fica feio.

Nuno Teixeira

Tópicos

Outras Notícias