Tiros nos pés

19 Jun 2017 / 02:00 H.

Para bem e para mal, o modelo de desenvolvimento turístico implementado na Madeira traz turismo em grupos (leia-se autocarros), e traz sazonalidade. Até que este paradigma seja mudado, convém que os administradores percebam várias coisas.

Que os turistas compram. Mais uma vez, talvez não tanto quanto seria possível, e talvez menos que noutros tempos – mas o facto é que compram, e que às vezes os que compram nos surpreende.

Que o turismo mantém o pequeno comércio a funcionar. E isto é principalmente verdade nos meios menos urbanos. E sendo verdade, faz-me muita confusão a incapacidade dos administradores perceberem que é preciso que haja onde parar carros e autocarros. Nem que seja um espaço de carga e descarga, desde que seja possível “esconder” um veículo de 12 metros em qualquer lugar relativamente próximo, e prático (isto é, não se lhe pode pedir que faça uma volta de quilómetros para regressar ao ponto inicial e recolher o grupo).

Que o turismo procura conforto e segurança. Isto é, o lugar a visitar até pode nem estar junto ao local de paragem do autocarro, mas tem de ser um percurso relativamente curto, e tem de ser exequível, e seguro – principalmente em termos de trânsito.

Que os operadores (leia-se agências de viagens, motoristas e guias) procuram consistência, segurança e acessibilidade. Se for muito difícil, ou se todas as semanas se corre o risco de coimas (nomeadamente por estacionamento), então não se vai fazer...

Nas últimas semanas tenho assistido a dias de caos, em locais como Arieiro, Ribeiro Frio, Cabo Girão, Porto Moniz, na zona hoteleira do Funchal e no aeroporto. Em Santana, as novas regras parecem apontar para a vontade de deixar de ter autocarros na área da camara municipal. No Arieiro, a rotunda junto à base parece um parque de estacionamento – e quem lá para são sempre os mesmos. O Ribeiro Frio é um desastre à espera de acontecer, muito por culpa do estacionamento desordenado por falta de alternativas. No Porto Moniz, as docas de cargas e descargas parecem estacionamentos. No Cabo Girão, idem. Na zona hoteleira, há sistematicamente ligeiros estacionados em docas de autocarros, bem como na rotunda entre o Melia e o Porto Mare. A doca junto ao Monumental Lido é estacionamento a qualquer hora...

Uma fiscalização eficaz a este estacionamento abusivo seria suficiente para financiar uma polícia municipal – já que a PSP parece não querer saber.

O Funchal continua a não ter um espaço onde os autocarros possam parar durante uns minutos. É circular, poluir a baixa e entupir as já sobrecarregadas ruas da cidade. Mas o estacionamento do cais 8 continua ali, orgulhosamente vazio – e inútil. Não é difícil, nem é caro. Basta querer...

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Roberto Loja

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