Tempos difíceis na Igreja

15 Set 2018 / 02:00 H.

Nos dias que correm, o Papa Francisco e toda a igreja católica foi apanhada num tempo de lodo a pedir purificação e que corrói os seus alicerces, com a denúncia de milhares de casos de abusos sexuais de menores, dos EUA à Austrália, da Irlanda ao Chile.

Este ataque ao Papa Francisco é visto na sociedade civil como “perverso por este ter tocado nos maiores problemas da Igreja: o corpo/sexo e o papel da mulher no seio da própria Igreja. No fim de contas é o embate que “se adivinhava”, do “encobrimento contra a “abertura”, uma guerra a um Papa que abriu a Igreja ao mundo.

Francisco que quer outra atitude com os divorciados e que se fale aos homossexuais e aqueles que não gostam, falam de heresia. Estes, os ultraconservadores estão a aproveitar as dificuldades para obstaculizarem as reformas. Estão a aproveitar algumas ambiguidades para fazer um caminho de retrocesso. As questões do celibato, da homossexualidade, do preservativo, têm que ver com as pessoas do século XXI. A Igreja tem de se abrir, com prudência, mas tem de se abrir como pensa e afirma Francisco.

Não ignoro que o escândalo da pedofilia é gravíssimo, tem sido desvalorizado e encoberto desde sempre. Mas se houve Papa que lidou com isto tem sido Francisco. Por isso, o que está a acontecer é uma forma de aproveitamento perverso e oportunista contra este Papa, que em muitos aspectos foi inovador e progressista e o oposto do establishment conservador que permitiu durante séculos que o problema da pedofilia se mantivesse.

Posso não concordar com o Papa Francisco em alguns pontos, mas, tenho que reconhecer que ele representa uma Igreja atenta, mais aberta às pessoas, e o establishment reacionário não o tolera porque é contra os seus cânones.

Como disse, o celibatarismo e o estatuto da mulher no seio da Igreja são os dois grandes problemas, do ponto de vista histórico, que estão a embater contra um clero que, até pela sua formação em seminários, não aceita a mudança com facilidade. A mulher é um problema desde S. Paulo e o corpo/sexo é o desde o Concílio de Trento.

Este Papa que veio do fim do mundo parece que quer resolver isto, não de forma radical, mas isso tem gerado no clero da Cúria Romana uma grande intranquilidade.

Este embate procura provocar uma radicalização no Papa, para depois refazer o avanço e tomar de novo o poder. Se se radicalizar, Francisco perde. Francisco, depois de João XXIII, foi o único Papa que passou uma mensagem capaz de unir católicos e não católicos num ideal de humanidade e de empenho contra os males da sociedade.

Cinquenta anos depois, Francisco, com ainda mais vigor, declarou guerra às injustiças de um mundo cruel, desigual e desumano. O mundo que cerca Francisco é pior do que então. A classe política em geral degradou-se e no interior da Igreja instalaram-se figurões e viciados que não hesitam face aos riscos que correm nas manobras mais torpes.

As mais recentes elevações a cardeal e bispo deixam algumas esperanças. Como a nomeação de José Tolentino Mendonça como responsável da Biblioteca Apostólica e do Arquivo do Vaticano e por isso Bispo. D. José Tolentino chega a Roma num momento complexo do pontificado do Papa Francisco, com algumas vozes a pedirem a demissão deste. Quando questionado sobre a situação critica da Igreja de Roma e do Papa, Tolentino respondeu de forma paradigmática “O conselho do Papa Francisco no regresso da viagem à Irlanda é de uma grande sabedoria: cada um julgue os factos por si e faça a leitura que tem a fazer... Uma coisa é certa: O Papa francisco é o ponto de referência de uma Igreja que assume a necessidade de se purificar de desvios erros e de crimes passados e que transporta para o presente uma exigência de coerência evangélica. Este é o primeiro a dar o exemplo. Não é por acaso que não só dentro da Igreja mas tantos não crentes manifestam o seu respeito e admiração por Bergoglio. Os seus actos falam e são uma nova âncora de esperança para o nosso tempo”.

Não posso deixar de referir também a posição dos bispos portugueses que demonstraram na passada semana o seu “total apoio” ao Papa Francisco e comprometem-se a seguir as suas orientações para “erradicar” o “drama dos abusos de menores por parte de membros responsáveis da Igreja”.

“Também nós partilhamos o sofrimento do Santo Padre e de toda a Igreja e propomo-nos seguir as orientações para erradicar as causas desta chaga. Empenhar-nos-emos em incrementar uma cultura de prevenção e protecção dos menores e vulneráveis em todas as nossas comunidades.”, escreveram os bispos portugueses, numa carta a Bergoglio, e divulgada há dias, no momento em que se reuniram em Fátima no Simpósio Nacional do Clero.

Em tempos difíceis e de crise ainda existem sinais de esperança...

José A. Roque Martins
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