Satisfação

Todos temos o nosso ‘quarto’ de Agosto - aquele sítio para onde se viaja sabendo para onde se vai. Um sítio próximo, mas distante do quotidiano

12 Ago 2018 / 02:00 H.

Agosto obriga-nos a descobrir que tipo de viajante somos. É um processo de tentativa e erro. Paul Theroux escreveu que o turista é aquele que não sabe onde esteve, e o viajante aquele que não sabe para onde vai. Faltou-lhe uma terceira fórmula, a do viajante que sabe para onde vai, o que regressa ao sítio familiar com o entusiasmo da novidade.

Xavier de Maistre era assim. No final do século XIX, de Maistre travou um duelo em Turim, e foi por isso condenado a passar seis semanas na mesma casa. Fechado, escreveu ‘Viagem à volta do meu quarto’, uma paródia autobiográfica ao estilo da grande narrativa de viagem, em que percorre cada detalhe da mobília como se fora um destino exótico. De Maistre, que escrevia nos tempos do Grand Tour, da viagem enquanto emblema aristocrático e exibicionismo endinheirado, foi na sua sátira como uma seta: toda a viagem é interior. A lição de de Maistre é que um bronco em Roma viaja menos do que um erudito à volta de seu quarto. E que viajar no quarto é, por isso, tão importante e didáctico como viajar fora dele.

Todos temos o nosso ‘quarto’ de Agosto - aquele sítio para onde se viaja sabendo para onde se vai. Um sítio próximo, mas distante do quotidiano, ou talvez com um quotidiano próprio. Um lugar onde se cresceu - de boa memória, mas também de promessas incumpridas, desilusões e enganos. O meu quarto de Agosto é o Porto Santo. Não fosse o meu quarto, e não seria só o paraíso que é. Teria o mar , a praia, os amigos. Mas também o vento, o frio, os preços, as contingências e os caprichos daqueles 42km2. Sucede que é o meu quarto. Nele não viajo apenas no espaço, mas sobretudo no tempo. E tenho ali mais tempo - e tipo de tempo - do que me conviria contar. É ali que o passado me dá a mão.

Este ano, não. Não fui. Escrevo de Cusco, no Peru, a 3.400 metros sobre o nível do mar. Os Andes, a sua beleza mística, inóspita e austera, parecem mandar de Maistre, o seu quarto, e as suas teorias passear. Isto é território de Chatwin, da viagem enquanto desafio e estímulo sensível, do espanto, da estranheza, e da inquietação que à força abrem e cartografam a cabeça. Viajamos no espaço, sem saber para onde vamos. Mas o tempo é um senhor caprichoso. Aqui, onde descansam e sobrevivem os vestígios da civilização inca, é difícil deixar grandes laudas ao desejo de expansão - ao desejo de espaço. Os espanhóis, como todos os conquistadores, saquearam e profanaram os templos e edifícios de governo. Há conventos sobre as ruínas, igrejas sobre os palácios. Um museu de artefactos Incas dá a isto um nome neutro: é o museu pré-columbino, o museu de antes de Colombo, que por estes lados significa também antes de Espanha e antes de Cristo. Ocorre-me que Colombo terá partido para o Porto Santo depois de concluir a sua comissão pelas Américas. E invejo, daqui, absurdamente esse seu destino, por uma falta que não sei explicar. Quando um vulto da História mundial lembra lambecas, há nisso talvez um sinal: de que viajar no espaço de nada nos vale, porque o quarto viaja connosco. Saio do museu. As colunas de um bar peruano ocupam a rua com ‘I can’t get no satisfaction’. Pareceu-me a verdade sobre viagens. A alegria berrante de Mick Jagger glorifica a tentativa e o erro - erro que é também sinónimo de deambular, vaguear, de não saber o que se quer. Conformados, errantes, felizes, confirmamos: satisfação? Não, não , não.

Pedro Fontes

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