Porque abandonei a política activa

temos de superar as contradições insanáveis, as hesitações e as resistências obscurantistas

14 Jul 2018 / 02:00 H.

Durante a minha vida, e ainda jovem, tive a oportunidade de conhecer e falar com alguns políticos que se viram obrigados a abandonar o ofício pela porta das traseiras, quando pensavam que ainda lhes faltavam coisas por fazer, ou que foram expulsos por uma antipatia popular que tinham dificuldade em compreender. Um deles tentava consolar-se com a ideia de que a posteridade faria um melhor juízo sobre ele do que os seus contemporâneos, e muito melhor ainda do que os seus companheiros de partido. Encolhia os ombros como se quisesse dizer-me que isso seria demasiado tarde e que teria preferido o aplauso agora, em vez do elogio póstumo. O que está em causa neste tipo de argumentos é saber em que consiste propriamente o êxito em política, como se medem e quem os determina.

Abordemos o lado mais dramático, porque tal faz parte das dimensões da vida em geral e da vida política em particular: a política fracassa sempre porque não se consegue tudo aquilo que se deseja e porque se sente com grande intensidade a resistência das coisas face à própria vontade. Por outro lado, não faz sentido pretender, num contexto de pluralismo político, a aprovação universal, alem de que há poucas evidências indiscutíveis, em política, de que se teve êxito ou se fracassou. Tudo isto somado faz com que a experiência política comum seja de um certo fracasso. É assim a natureza das coisas humanas. A acrobacia lógica das memórias políticas costuma ignorar este tipo de coisas, do mesmo modo que quando estavam no activo os políticos exibiam os êxitos próprios e protegiam-se dos seus futuros fracassos exagerando as dificuldades do momento. Um político é alguém que combina o juízo sobre a herança recebida e o que é politicamente possível, de maneira que seja julgado com a maior benevolência.

Se há algo que escasseia nas memórias políticas é a modéstia e, no entanto, seria essa a conclusão lógica de qualquer vida política examinada com sinceridade. Há muito mais razões para não alardear que para se gabar, porém, os seres humanos nem sempre optam pelo mais razoável. É bom chamar a atenção para duas circunstâncias que aconselham os políticos a não se gabarem demasiado dos próprios êxitos. Há uma primeira que tem a ver com a dificuldade de medir o êxito e imputá-lo indiscutivelmente a alguém. O impacto real dos governos na economia por exemplo, só se consegue medir através dos seus custos de oportunidade, ou seja, em relação aos efeitos que poderia ter tido uma decisão alternativa. Qualquer êxito devia ser ponderado tendo em conta a dificuldade do assunto bem como as outras possibilidades. Quantas decisões políticas são criticadas duramente sem se ter em consideração aquilo que merece elogio ou censura está tão dependente de um determinado contexto que deveríamos ser sempre muito cautelosos nas nossas avaliações.

Há outro motivo para a modéstia e que tem a ver com o facto de no contexto político intervirem muitos actores. Tendo em conta a extrema contingência da política no seu todo, e adjudicação de mérito ou culpa, não é um problema menor e raras vezes possuímos evidências necessárias para determinar a quem se deve que as coisas estejam como estão, tanto fazendo se estão bem ou se estão mal. Os cidadãos tendem a confirmar os seus governos quando a situação económica é boa e a expulsá-los do poder em momentos de crise, sem que tais situações se devam necessária e exclusivamente ao governo em funções. Em ambientes de interacção densa, o êxito ou o fracasso têm muitos autores, o que em parte desculpa, em muitas ocasiões desresponsabiliza e diminui a magnitude do triunfo, obrigando a partilha-lo com muitos outros.

Quando a realidade intrincada e complexa, os efeitos práticos das nossas decisões são menos transparentes e todo o debate político gira em torno da interpretação da situação. Não é estranho que nesses casos reine uma confusão gerada pela dificuldade em imputar responsabilidades, pela abundância de desculpas e pelas manobras populistas que, alegadamente pairam sobre a quem atribuir os acertos e erros.

A principal perspectiva social e politica que temos actualmente, o nosso principal desafio, é, a meu ver levar ao colo uma política inteligente e reflexiva, colocar a política à altura das exigências que uma sociedade do conhecimento levanta. Ora bem, pergunto-me, para concluir, é possível pensar no meio da política? Desde logo, não parece ser essa a atitude própria da maior parte dos actores políticos, dominados por uma agitação superficial e especialmente submetidas à ditadura do imediato. No fundo, porem, todos sabemos que com o activismo não se combate a perplexidade, apenas se dissimula. Nunca vamos tão depressa como quando não sabemos onde vamos. Por isso, uma das funções de toda a crítica política é desmascarar essa falsa mobilidade, aquelas formas de pseudoactividade cuja aceleração e firmeza se devem precisamente ao facto de não se fazer a mais pequena ideia sobre o que se passa. Noutra época, pensar talvez fosse uma perda de tempo, na nossa - quando não podemos contar com a estabilidade de âmbitos e conceitos, nem confiar confortavelmente nas práticas consagradas - pensar é uma forma de poupar tempo, um modo radical de actuar sobre a realidade.

Em conclusão, temos de superar as contradições insanáveis, as hesitações e as resistências obscurantistas que têm impedido o pleno desabrochamento português.

Compreendem agora porque abandonei a política activa?

Roque Martins

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