Passados a Ferry

15 Mai 2018 / 02:00 H.

Depois de uma ligação marítima de passageiros, e carga rodada, a operar todo o ano, entre a Madeira e o Continente, com ligação às Canárias, que pagava anualmente no Funchal um milhão de euros em taxas portuárias, ter sido escorraçada pelo Governo Regional em favor de um grupo empresarial local bem conhecido, eis que, finalmente, essa ligação irá ressurgir, mas, agora, a custar ao erário público 3 milhões de euros por ano para operar apenas nos meses de verão, com taxas portuárias substancialmente reduzidas, com viagens mais demoradas e a ser operada pelo tal grupo empresarial local. É impressão minha ou estamos mesmo a ser passados a ferro!?

Está aberta a época das medalhas e condecorações a Alberto João Jardim. Tanto os de lá como os de cá, quer os que se abrigaram debaixo da sua asa quer os que dele só receberam bicadas, todos lhe querem pendurar uma medalha ao pescoço. Algumas pessoas esqueceram depressa as ofensas, o défice democrático, as megalomanias, o desemprego, o regresso à emigração e a dívida escondida, entre outras maldades praticadas. É este o mérito que a ‘casa de loucos’ irá reconhecer a Alberto João Jardim!? Há quem goste de ser passado a ferro.

O fim de um ano perdido na II Liga de Futebol foi euforicamente comemorado pelo Nacional, com muitos a pendurar ao pescoço o cachecol da ocasião para entrar na festa. Como não há almoços grátis (neste caso fotografias e imagens televisivas), aqueles que se alaparam à festa (será que se fizeram convidados?) foram logo confrontados com uma mão estendida à sua frente. Pedem mais dinheiro dos nossos impostos, além dos milhões que já recebem, porque, dizem, o futebol é um negócio rentável. Mas se é assim tão rentável por que precisam de subsídios? Sabendo as necessidades que temos em áreas como a saúde e o apoio social, pedir mais dinheiro para o futebol é imoral. Até o mais fervoroso adepto de futebol adoece e precisa de cuidados de saúde (não será já a clubite uma doença?), não será o jogo da bola que lhe vai acudir nesses momentos mais difíceis. Razão teve Rui Rio quando, à frente da Câmara Municipal do Porto, não pactuou com a promiscuidade entre política e futebol, e apesar disso, ou talvez por isso, ganhou sempre as eleições. Os dirigentes dos clubes de futebol devem achar que os madeirenses gostam de ser passados a ferro, é isso!?

Algo tão importante para a sociedade madeirense como o relacionamento institucional entre a Região Autónoma da Madeira e a República Portuguesa continua a ser usado como uma mera arma de arremesso para fins de conquista ou manutenção do poder. Alberto João Jardim fez desse expediente o campo de batalha contra os seus moinhos de vento e parece ter deixado seguidores fiéis. Chegamos ao ponto de se acotovelarem para ver quem chega primeiro a Lisboa. Só podem estar desejosos de passar-nos a ferro. Por falar em expedientes requentados da luta política, alguém na Assembleia da República falou em pedir a demissão de um ministro, e logo por cá houve quem acordasse com as mesmas vontades. Um pediu a demissão de todo o Governo da República e o outro ficou-se por uma Secretária Regional. Só podem achar que já estamos todos passados a ferro.

Não é novidade nenhuma, mas a comunicação social escrita, pelo menos por cá, está cada vez mais ‘rendida’ (atenção, não estou a dizer vendida) a compromissos que não se enquadram com a independência informativa e o esclarecimento da verdade. O destaque das capas e a importância editorial dada aos temas e assuntos estão cada vez mais passados a ferro, e vão sendo distribuídos, de acordo com esses compromissos, a um e a outro lado. Todos sabemos que os jornais não conseguem viver do leitor e precisam de outras fontes de financiamento, mas que não cheguem ao ponto de vender a alma ao diabo, há um mínimo a manter. Não sou só eu que vejo isto, afinal ainda há quem não tenha sido passado a ferro, é o caso do Sindicato dos Jornalistas, pela voz do seu presidente, António Macedo Ferreira, que, no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, alertou para o perigo da cada vez maior dependência de fontes de financiamento de natureza política e da dificuldade em, por vezes, distinguir a notícia da publicidade.

Hélder Spínola