País real

O país não pode continuar a viver de representações confusas absolutamente vazias

09 Ago 2017 / 02:00 H.

Na sequência dos impressionantes resultados económicos verificados na Irlanda, a agência responsável pelas estatísticas oficiais decidiu introduzir um novo indicador alternativo que procura medir a dimensão da economia, tendo por base uma imagem mais correta e estável do seu verdadeiro estado, afastada dos efeitos de distorção e volatilidade decorrentes da globalização e da ação das multinacionais no país, onde se fixaram por força de um regime fiscal mais favorável e de onde retiram elevados rendimentos. O “rendimento nacional bruto” (RNB) modificado, substitui o tradicional produto interno bruto (PIB) num momento em que é evidente o desencontro entre aquilo que mostra o PIB e o que efetivamente acontece na chamada “economia real”, a que afeta mais os irlandeses e que é dominada, não por multinacionais, mas por pequenas e médias empresas. Naturalmente que os resultados deixam de ser extraordinários e passam a ser muito mais modestos, essencialmente mais prudentes, por forma a que possam ser trabalhados numa perspetiva de estabilidade, transparência, confiança e segurança.

Ora, enquanto os Irlandeses elevam os níveis de exigência e lançam prudentes fatores de correção que permitem perceber todos os contornos económicos para um crescimento sólido e sustentado, os políticos portugueses continuam a procurar todo o tipo de representações estéticas que possam empolar os resultados de uma economia muito frágil que, não obstante a conjuntura altamente favorável, continua a reagir muito lentamente.

Enquanto os Irlandeses deixam um registo de uma cultura de responsabilidade, em Portugal a classe política tenta desesperadamente manter-se no poder, muitas vezes em absurdas trocas de cadeiras, numa sucessiva dança de personalidades protegidas, mas absolutamente esgotadas, em lugares vazios que as escondem e que as perpetuam num poder artificial e vão, onde constroem uma espécie de teia de ligações perigosas, mal disfarçadas e desenvergonhadas, onde se entrecruzam vínculos vazios que lhes dão vantagens, muitas vezes patrimoniais, num ambiente de vaidade e de intriga vulgar, em carreiras ilegítimas, despidas de valores e princípios, ao serviço de interesses específicos, perante um povo que desprezam e subestimam, que julgam distraído e adormecido, mas que está apenas cansado e desiludido, que já não se deixa enganar, que é indiferente ao ruído e à euforia eleitoral, à êxtase eleitoralista, que está verdadeiramente resignado e assiste a tudo impotente, sobrecarregado com impostos que nada lhe asseguram e que servem apenas para alimentar essa classe política irresponsável e irresponsabilizável, que, por inércia, incompetência, demérito ou egoísmo, não cumpre as suas atribuições, que nada promove, que nada assegura e que não gere o que é público como se fosse próprio.

Enquanto o poder político pinta as contas e confunde os números, o nosso Sistema de Segurança Social, que foi determinante na redução do impacto da crise financeira internacional, designadamente suavizando as consequências do desemprego, não consegue ter perspetivas de sustentabilidade e vive de transferências extraordinárias dos sucessivos Orçamentos de Estado – 650 milhões de euros no ano 2016 – que vêm suprindo os sucessivos défices.

O país não pode continuar a viver de representações confusas absolutamente vazias, tem de implementar uma nova cultura de transparência, de responsabilidade e de responsabilização, num caminho orientado para o crescimento sustentado e sustentável, partindo sempre daquela que é a realidade incontornável.

Brício Martins de Araújo