Os arquitectos e as eleições autárquicas

Uma cidade não pode ser gerida por quem desconhece o urbanismo, nem o que significa o projecto de arquitectura

10 Out 2017 / 02:00 H.

Entre algumas pessoas menos alfabetizadas persiste a ideia de que contratar um arquitecto é um gasto supérfluo, dispensável quando está em causa tomar a decisão mais económica e eficaz para reabilitar uma casa ou uma cidade (e digo reabilitar porque o tempo da obra nova não voltará tão cedo). Esta ideia analfabeta, que, diga-se em abono da verdade, se propagou com a ajuda de alguns arquitectos que se tomam por Artistas, parece ter os dias contados. E a prova disso são as últimas eleições autárquicas na Região, onde estes profissionais foram chamados a integrar lugares chave em muitas das equipas que se candidataram às câmaras municipais.

Veja-se, por exemplo, o caso do Funchal, onde três forças políticas (entre as quais as duas mais votadas) tiveram arquitectos como candidatos ao pelouro do urbanismo, ou o caso do partido que venceu em Santana. Na sede da Delegação da Madeira da OA teve lugar, no decurso da campanha eleitoral, um participado debate sobre o PDM do Funchal onde todos estes candidatos estiveram presentes dando a conhecer as suas ideias sobre a cidade. Findas as eleições, daí resultou que a capital do arquipélago terá como vereador do urbanismo um arquitecto. Já não era sem tempo!

Com efeito, uma cidade não pode ser gerida por quem desconhece a importância de disciplinas como o urbanismo, nem o que significa o projecto de arquitectura. Claro está que nenhum Presidente da Câmara é obrigado a conhecer a fundo estas matérias, a sua função é de liderança politica. Por isso mesmo, ele precisa da orientação de um arquitecto, de um profissional que saiba como diagnosticar e suturar as feridas do tecido urbano, que saiba ler num projecto ou num plano as futuras dissonâncias ou harmonias que a sua materialização poderá dar origem. Sem esta orientação, bem pode esse Presidente da Câmara ser um irrepreensível exemplo de probidade e eficiência, o seu legado será nulo e dele não rezará a história da cidade.

Nos últimos três anos, a Delegação Regional da OA têm-se esforçado por dignificar a profissão. Distanciando-nos das quezílias político-partidárias, tentamos demonstrar que quando os interesses de uma classe profissional coincidem com o interesse público vale a pena dar a conhecer a nossa posição: fizemo-lo em nome da reabilitação urbana ou da preservação de edifícios notáveis; em defesa dos valores da nossa paisagem, denunciando a destruição das pontes e ribeiras do Funchal; ou na petição Savoy, onde ficamos a saber quem verdadeiramente se interessava pelo destino da nossa cidade. A presença dos arquitectos nas campanhas autárquicas é a prova de que temos um papel fundamental a desempenhar na comunidade. Aqui ficam, pois, os meus votos de sucesso a todos os eleitos e um apelo à perseverança crítica dos que ficaram na oposição.

Rui Campos Matos
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