O poder do local

Na hora da verdade, os valores do bairrismo genuíno cedem sempre aos demais

08 Ago 2017 / 02:00 H.

Deveríamos, sim, confundir o “poder local” com o “poder do local”. O primeiro, pelo qual se luta até o próximo dia 1 de Outubro, deveria ser um vector de promoção e condução para o segundo, atendendo a que ninguém melhor do que os locais pode conhecer e valorizar cada local.

Por partes, local é a unidade da identidade e raíz da cultura, das coisas únicas, pequenas, experiências singulares, muitas vezes fora do alcance de quem não é local. Uma identidade tão singular e pequena, vulgar e muitas vezes, insignificante, ao olhar dos locais, que se confundem ou diluem nessa pequenez que tantas vezes odeiam ou fazem por esconder, camuflando com pinceladas (caríssimas) de manias maiores. Tudo em nome do direito ao mesmo, de ser grande e de se aceder ao que os grandes dispõem, esquecendo que os espaços maiores reúnem nos seus perímetros, os mais pequenos. O disfarce, justificativo, invariavelmente é a dinamização do comércio e das actividades económicas locais. Organiza-se um evento que junta cinco a dez vezes mais pessoas do que a população local em nome da dinamização do que não existe, a não ser nesse mesmo momento. É muito mais fácil, mais acessível e está sempre à mão, pela mão dos de sempre. Muito mais complicado e mais trabalhoso seria procurar, na identidade local, na sua história e memória, motivos a que se juntariam a comunicação, inovação e criatividade, modo inclusivo e, mais importante ainda, verdadeiro, e transformá-los em vivências e dinâmicas sócio-económicas genuínas e sustentáveis. Aproveitando o Verão para tentar dar a imagem da coisa, pergunta-se, hoje, qual é a diferença entre dois arraiais, sem ser no tamanho físico dos espaços onde ocorrem, dos artistas convidados, ou do volume de cerveja vendido? Qual a percentagem de “cultura local” evidenciada e promovida e por quem? Não será uma contradição passar um ano a reclamar pela valorização das coisas pequenas e locais e, quando chega ao momento da decisão, a opção recair sempre para replicação, normalização e diluição identitária na barraca do pão com chouriço e afins?

O poder do local depende exclusivamente do poder local mas, na hora da verdade, os valores do bairrismo genuíno cedem sempre aos demais. Nem há tempo para parar para pensar que o serviço e investimento proporcionados serve mais a quem vem, ver ou vender, do que para promover seja o que for. As designações das festividades deveriam até mudar. Em vez de festas, “do”, de” ou “da”, deveriam ser festas “na” ou “no” pois, na prática acabam por ser um “roadshow” que vai passando de sítio em sítio com os mesmos a fazer exactamente o mesmo. Quase se poderia criar um espaço fixo, eventualmente com melhores condições logísticas e cada freguesia viria fazer a sua festa...

Como sempre, há excepções a confirmar a regra. Não muitas e com enormes dificuldades, sem grandes coberturas mediáticas, com afluências ajustadas mas fiéis, em dimensão (ainda) não apetecível aos promotores ou irredutivelmente defendidas por quem acredita em si mesmo e no poder do local.

António Domingos Abreu
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