O fim da experiência monetária

07 Fev 2018 / 02:00 H.

Após o recorte nas medidas expansionistas do Banco Central Europeu (BCE) ocorridas no Natal, onde Mario Draghi anunciou um plano mais moderado de compras de activos, e depois de ter anunciado que considera muito pouco provável o aumento das taxas de juro de referência durante 2018, é imperativo perceber se a recente recuperação económica tem uma origem endógena ou se está a ser mascarada por factores externos como declarações e medidas monetárias de outros países.

Voltando um pouco atrás no tempo, esta não é a primeira vez que o BCE faz recortes nas suas políticas expansionistas. Já em Abril de 2017, cortou em 20.000 milhões de euros as suas compras de activos. Oito meses mais tarde, modera de novo a mesma medida, que inicialmente parecia não ter limites nem fim, uma vez que as declarações que lhe deram origem afirmavam que iria ser implementada durante o tempo que fizesse falta para salvar o euro. A recente redução em 30.000 milhões de euros, foi tomada com pouca segurança porque foi compensada com um aumento no prazo de vigência, que irá agora vigorar até Setembro de 2018. Isto expressa a incerteza com que o BCE encara a forma como a economia está a reagir. Esta é a razão pela qual Mario Draghi está a levar a cabo a sua política de redução de estímulos (tapering) de uma forma muito mais suave do que sucedeu, por exemplo, nos Estados Unidos.

A Reserva Federal Americana, desde o início da crise, sempre usou de um estilo mais directo no que diz respeito à forma como afrontou a crise. Foram mais rápidos a aplicar políticas monetárias expansionistas, mais rápidos a deixar algumas entidades financeiras falir e mais rápidos na redução das mesmas políticas, porque também os efeitos sentiram-se mais cedo. A primeira redução no programa de compras foi logo em Dezembro de 2013. Depois do Verão de 2017, quase quatro anos depois de iniciado o tapering, a Reserva Federal extinguiu completamente a compra de activos, pois considerava que o processo de crescimento económico já estava consolidado. A Reserva Federal também foi mais rápida a utilizar a taxa de juro como instrumento para conseguir a desejada estabilidade de preços e crescimento económico. Actualmente, a taxa de juro de referência já alcançou 1,5% após as subidas sucessivas dos últimos anos e está num nível que permite a sua utilização no caso de ser necessário.

Esta inércia do BCE até é compreensível. Estas medidas nunca haviam sido utilizadas na Europa depois do euro. É normal se tratando de uma grande experiencia de política monetária, tal como foi catalogado por Rothschild, teve de ser feita com muita precaução, porque os seus efeitos reais eram desconhecidos. Foi um processo mais lento e mais oneroso para as pessoas, mas muito útil para sustentar o uso do balanço dos bancos centrais e das alterações na taxa de juros de referência como uma das principais ferramentas de política monetária para atingir estabilidade de preços e crescimento económico na Europa tal como ela hoje se configura. Já se viu que estas medidas têm os efeitos desejados, mas parece que subsistem dúvidas se já entramos num período de fortalecimento económico sustentado ou se as melhorias que estamos a sentir ainda estão muito dependentes destas medidas expansionistas ou de outras externas. A minha leitura dos indicadores económicos é positiva. Com inflação, PIB, exportações, investimento privado, desemprego, consumo e indicadores de confiança e de clima económico a melhorar consistentemente, só pode significar que a economia Europeia já está pronta para largar as muletas e após quase uma década de crise começar a caminhar sem ajudas.

Luís Pedro Branco