Nós mesmos

Há aí umas queixas recentes, potencialmente problemáticas. Só que falam em plátanos, e a árvore era um carvalho

10 Set 2017 / 02:00 H.

Num gabinete, em Agosto:
– Doutor, as minhas condolências. O acidente com a árvore...

– Foi trágico.

– Trágico!

– Neste momento de consternação, é nosso dever estar ao lado das famílias, dos fiéis, dos cidadãos.

– Bravo Doutor. Muito bem.

– É a prioridade.

– É a prioridade! Mas sabe Doutor, a política nisto não é pêra doce. Temos as condolências, a consternação, o apoio, o luto, temos aí felizmente o Presidente...

– Sim. Temos isso. Mas bem sei que também temos o resto.

– Ora bem. E o resto é ganhar, Doutor. E é como digo: ganha-se controlando a mensagem. Mesmo mensagens como esta – ou sobretudo mensagens como esta.

– O que é que temos?

– Três ou quatro pistas. Estamos a ver de quem é o terreno. Existe uma hipótese de ser da Diocese.

– Nada mau. Mas é o dono do terreno que é responsável por cuidar de árvores maciças e centenárias, que fazem sombra ao espaço público? Não somos nós que podamos aquilo?

– Não se rale com isso Doutor! O pior que nos acontece é um tonto qualquer no Facebook dizer que a culpa está na casa do carvalho.

– Que mais temos?

– Há aí umas queixas recentes, potencialmente problemáticas. Só que falam em plátanos, e a árvore era um carvalho. Temos de resto a indicação de que a árvore tombada “tinha uma copa verde e saudável, e não apresentava qualquer anomalia”. É bom, é uma forma discreta de declarar que a queda foi anormal e imprevisível.

– Não é um pouco mesquinho discutir a espécie de um tronco daquele tamanho? E não nos fica mal sublinhar que a copa estava “verde e saudável”? Tem a certeza que não nos aparece outro tonto qualquer, a reclamar que só faltou dizer que estava “rija e pesada”?

– Não se preocupe Doutor. A gente abafa isso. Desencantámos também umas queixas antigas, para dispersar e aliviar a pressão.

– E mais?

– Olhe, proponho mostrar serviço. Contratar uns peritos, pôr as motosserras a roncar, activar serviços de limpeza, fazer um périplo pelas forças de proteção civil.

– Cá em baixo, tudo bem. Mas, e lá em cima? Somos nós que temos competência para isso? Não há uma investigação, um processo?

– Com o devido respeito pelas vítimas, Doutor, não desajuda a confusão entre uns e outros.

– Compreendo. Uma inquietação minha. Qual é o risco de se fazer uma análise séria e rápida disto? Atribuições, competências, deveres, responsabilidade penal, responsabilidade civil, responsabilidade política, culpa? No rescaldo parece tudo a mesma coisa, mas na minha cabeça são bem distintas. Tenho medo. Medo de que isto seja o nosso Entre-os-Rios, ou mesmo a nossa palmeira de Vila Baleira. A sociedade vai evoluindo, as pessoas vão distinguindo, vão ligando a estas subtilezas. Até por causa do que fomos dizendo dos outros.

– Doutor, cá entre nós... Uma análise objectiva e fundamentada? Não se preocupe.

– Como não me preocupo?

– Ninguém lê.

No mesmo gabinete, hoje:

– Doutor, parece controlado. Foi duro, mas parece controlado. Ancorámos o tema. Continua a ser matéria de opinião. E opinião, Doutor, cada um tem a sua e muitos têm a nossa. Mas foi uma roda-viva. Fez-me lembrar uma frase do Andy Warhol: “Dizem que o tempo muda as coisas, mas temos de ser nós mesmos a mudá-las”.

– Apropriado. Recorda-me de outra máxima, com que todos os dias me confronto em campanha eleitoral. Dizem que “numa guerra, a primeira vítima é a verdade”.

– ...Mas temos de ser nós mesmos a matá-la.

– Isso já é o senhor a dizer, não eu. Não podemos esquecer o que se passou lá em cima. Foi trágico.

– Trágico!

Pedro Fontes

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