Nacional, 107 anos a fazer o futuro

Não desprezar a matriz eclética do clube apoiando-se naquilo que de melhor ele tem: os sócios e simpatizantes

07 Dez 2017 / 02:00 H.

A proximidade da data de publicação desta nota com o aniversário do Clube Desportivo Nacional sugere os parabéns a todos os nacionalistas que, ao longo de muitas gerações, foram construindo uma identidade singular, não melhor, nem pior do que a de qualquer outra colectividade desportiva, mas, única. São 107 anos e, muitas seriam as perspectivas sob as quais poderíamos sublinhar os feitos desportivos e sociais que, ao longo de todos esses anos, deram corpo e crédito ao Nacional enquanto organização desportiva e social, quer na região, quer fora dela. O que importa lembrar nesta data é, precisamente, a identidade e a condição de a manter, em detrimento da alucinação pontual que a falta de memória por vezes provoca, gerando ilusões que escamoteiam o código genético e verdadeira matriz de uma colectividade e, consequentemente o seu devir.

Sem dúvida que o futebol é, sempre foi, e vai continuar a ser a modalidade rainha no Nacional. Mas isso nunca foi, nem pode, nunca, ser a razão exclusiva da sua existência. Hoje, por diferentes, mas infelizmente consistentes e bem identificáveis razões, o Nacional apresenta-se como um clube quase exclusivamente de futebol e, mesmo nesse particular, com uma performance que se revela, a cada dia que passa, menos capaz e menos competitiva numa indústria que, entretanto, se profissionalizou e ultra-especializou sem que o Clube e os seus responsáveis tenham conseguido entender e se preparar de forma adequada. A gestão da “bola” ao nível profissional não se compadece com amadorismos ou dirigentes transformados em especialistas sem que tenham qualquer formação técnico-desportiva e, ainda pior, entendimento da actual indústria do desporto nas suas múltiplas envolventes. Não é por isso difícil de entender o insucesso em campo, nas bancadas, nas associações de que se faz parte e a consequente perda de crédito e visibilidade. Insistir neste caminho só tem um desígnio que não creio ser o que os Nacionalistas mais desejam. Como se não bastasse, à pobreza do futebol (e o que isso significa em termos de meios disponíveis, visibilidade e capacidade de investimento), associa-se o depauperar do património eclético do clube com o inexplicável desaparecimento de modalidades históricas e a falta de vontade em abraçar modalidades emergentes, algumas vezes por meras “birrinhas de imberbes”. Hoje é muito difícil ver as cores alvi-negras no contexto desportivo regional, com honrosas excepções que muito se devem à capacidade de resistência de alguns carolas que não baixam a bandeira alvi-negra.

Os desafios são enormes, mas não será por isso que devem ser ignorados. Reforçar a capacidade de gestão ao nível do futebol profissional, com mais competência e profissionalismo e não desprezar a matriz eclética do clube apoiando-se naquilo que de melhor ele tem: os sócios e simpatizantes. Este é o desafio e o caminho a seguir. Foi sempre assim na maioria dos 107 anos. Não foi com o dinheiro do governo que o Nacional se fez, nestes 107 anos, pioneiro em tantas vertentes desportivas e sociais. Foi, antes, com o arrojo, iniciativa, trabalho, árduo e competente, dos seus atletas, dirigentes, sócios e simpatizantes. Foi, sempre, com sonho e galhardia e, muito poucas vezes, com desânimo ou lamento. Viva o Nacional.

António Domingos Abreu
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