Mordaça Social

15 Abr 2018 / 02:00 H.

Depois da festa e dos foguetes com a liberalização da linha aérea Funchal-Lisboa; Depois de um modelo de subsidiação ao transporte aéreo feito à medida da TAP e sem pensar no passageiro; Depois do agradável sabor em sair da Madeira a preços (quase) controlados; Depois do nervosismo pela perspetiva de perder direitos nas condições definidas para a continuidade territorial; Depois dos dissabores por tantas vezes, e cada vez mais, as correntes de ar fecharem a porta do Aeroporto da Madeira; Quando se exacerba a desconsideração, há muito evidenciada, da TAP para com os madeirenses; Eis que surge quem (e bem), do alto dos seus cargos públicos e políticos, dê murros na mesa, se indigne pelo tratamento como gado, apele ao entendimento entre governos e exija a intervenção do Presidente da República, tudo para que a situação se resolva. Num patamar mais terreno, e muito antes do posicionamento dos generais, já a revolta havia (e bem) tomado conta das redes sociais, das conversas de café e das páginas dos jornais. A perspetiva do ilhéu ficar preso na sua própria ilha, ou a ela não conseguir regressar, assusta (legitimamente), mesmo àqueles que dela pouca intenção tenham de se afastar. As consequências de um mecanismo desengonçado não conseguir responder às necessidades do Turismo deixa em estado de pavor (e com muita razão) toda a sociedade, em muito dependente desse sector.

Há voz, há protesto, há indignação (e bem) perante as ameaças ao normal funcionamento da continuidade territorial entre a Madeira e o Continente português. Não há voz, não há protesto, não há indignação (e mal) perante os constrangimentos à continuidade territorial dentro do Arquipélago e da própria ilha, constrangimentos estes que afetam uma franja da sociedade com pouco poder económico e reivindicativo. Pelo Sr. José Luís e a Dª Maria Odete, sem carro, com os filhos emigrados, que para virem do Arco de São Jorge ao Funchal, tratar do reembolso das consultas, fazem 4 horas de viagem em autocarro e gastam 21 euros e 40 cêntimos em bilhetes, não há quem dê um murro na mesa ou fique indignado pelo tratamento como gado, nem tão pouco quem apele ao entendimento entre governos ou exija a intervenção do Presidente da República. Pela Dª. Matilde do Porto Moniz que, depois de esperar 4 anos pela sua consulta, é finalmente chamada ao hospital, tendo de acordar às 5 horas da manhã e despender 16 euros em bilhetes e mais de 3 horas em autocarro, não há quem dê um murro na mesa ou fique indignado pelo tratamento como gado, nem tão pouco quem apele ao entendimento entre governos ou exija a intervenção do Presidente da República. Pelo Bruno, estudante na Universidade da Madeira, que mora no Santo da Serra e paga todos os meses um passe de 168 euros para vir de autocarro para o Funchal e, aqui chegado, outro de 40 euros para a ligação ao Campus Universitário, não há quem dê um murro na mesa ou fique indignado pelo tratamento como gado, nem tão pouco quem apele ao entendimento entre governos ou exija a intervenção do Presidente da República. Pelo Sr. Joaquim, morador no Curral das Freitas, que, em período não escolar, necessitando de ir à Câmara Municipal tratar de qualquer assunto, tem de apanhar o autocarro para o Funchal e daqui outro para Câmara de Lobos, gastando 11 euros e 10 cêntimos, não há quem dê um murro na mesa ou fique indignado pelo tratamento como gado, nem tão pouco quem apele ao entendimento entre governos ou exija a intervenção do Presidente da República. Pela Dª Maria que já tem dificuldades em andar e, para dar um pequeno passeio a pé, precisa descer uma dúzia de degraus de acesso à estrada e, a partir daí, desviar-se dos carros estacionados e ter cuidado com os degraus no fim das passadeiras, não há quem dê um murro na mesa ou fique indignado pelo tratamento como gado, nem tão pouco quem apele ao entendimento entre governos ou exija a intervenção do Presidente da República. Pelos Porto-santenses que todos os anos se vêm privados durante o longo e penoso mês de janeiro de uma ligação marítima de passageiros, não há quem dê um murro na mesa ou fique indignado pelo tratamento como gado, nem tão pouco quem apele ao entendimento entre governos ou exija a intervenção do Presidente da República. Pela continuidade territorial dentro do Arquipélago e da própria Ilha para aqueles que não têm para si um lugar ao sol nesta sociedade de contrastes, não há quem dê um murro na mesa ou fique indignado pelo tratamento como gado, nem tão pouco quem apele ao entendimento entre governos ou exija a intervenção do Presidente da República.

Hélder Spínola