Meu querido mês de Agosto

nunca trabalhamos só para nós e não podemos chegar a lugar algum sozinhos

06 Fev 2018 / 02:00 H.

Em Agosto de 1985, tinha eu 14 anos, tive a minha primeira experiência de trabalho e logo num serviço público. Àquela data começavam a aparecer as primeiras novidades tecnológicas, como computadores e jogos eletrónicos, e naturalmente desejei ter o que estava na moda: um computador para servir de consola. Entre um Zx Spectrum e um Timex 48K, a escolha recaiu sobre este último. Bem, na verdade, e à distância destes anos que passaram, aquilo não era bem um computador, pois para funcionar, para além do dito computador, que se resumia a um teclado, era preciso ligá-lo a um leitor de cassetes, que lia o jogo, e a uma televisão, que servia de ecrã. Coisas do século passado...

Era tudo muito bonito, mas faltava o dinheiro. Como não havia abundância de escudos lá em casa, porque a empresa onde o meu pai trabalhava atravessava dificuldades e os ordenados estavam sempre em atraso, havia que arranjar maneira de adquirir o computador, o que só piorou quando a empresa fechou e o meu pai ficou desempregado. A única solução foi mesmo correr atrás dos meus próprios sonhos e abdicar de um mês de praia na Madalena do Mar, terra dos meus avós maternos, para ir trabalhar no programa de emprego para estudantes, o “Juventude e Trabalho”. Analisados os serviços disponíveis no Governo Regional, verifiquei que indo para o Poiso/Ribeiro Frio colaborar com os Guardas Florestais, recebia mais dinheiro, porque havia um acréscimo de vencimento pelo facto de lá ter de pernoitar. Assim fui e assim tive a satisfação, não só de perceber a importância da missão daqueles homens, mas também do que significava trabalhar para o bem comum.

É isso que me tem movido desde então, nas funções que tive o privilégio de exercer, seja na qualidade de Professor, seja como Presidente de Câmara: a vontade de dar um sentido ao nosso próprio esforço, podendo fazer coisas para os outros e podendo ser verdadeiramente útil. Naturalmente que a amplitude do que faço tem hoje outra escala, se compararmos o que fiz na “Juventude e Trabalho” e o que faço agora como autarca. Mas só cresceu a responsabilidade, porque a motivação, o empenho em trabalhar e a vontade de aprender sempre, mantêm-se. Lembrei-me disto há pouco tempo, num momento absolutamente fundamental do ano na Autarquia, que foi a elaboração do Orçamento Municipal. Lembrei-me, porque não é possível fazer um orçamento municipal, sem pensar constantemente no reflexo que ele terá na vida dos outros. No reflexo que aquilo que faço terá, todos os dias, na vida das pessoas para quem governo.

Um orçamento é muito mais do que um exercício teórico, é muito mais do que complexas análises económicas ou fórmulas financeiras inscritas numa folha de Excel. Um orçamento são as prioridades políticas que se estabelecem e as implicações que elas terão nas coisas mais comuns do dia-a-dia da comunidade. E este foi um bom orçamento, um orçamento que nos orgulha a todos, e que é o mais elevado desde o resgate do PAEL, assinado pelo anterior executivo em 2012.

Desde então fizemos um longo caminho, sério e seguro, resiliente e responsável, cuja gestão financeira exemplar possibilita, hoje, que tenhamos uma política fiscal equilibrada e amiga das famílias, com devolução de 1,5% de IRS, o IMI à taxa mínima e a aplicação do IMI Familiar. Mas este ano, também aumentamos o investimento, em cerca de 30%, um investimento público que terá reflexo no crescimento económico, na criação de emprego e no aumento da qualidade de vida dos funchalenses. Em política há que fazer opções, estabelecer prioridades e tomar decisões. As nossas são claras: a reabilitação urbana e a requalificação do espaço público, a habitação social, a qualidade de vida nas zonas altas e a educação.

Também por isso, não poderia ter maior satisfação, do que inaugurar este ano a 3ª fase do Conjunto Habitacional dos Viveiros e do Conjunto Habitacional da Quinta Falcão, no âmbito do Programa Amianto Zero, do que ver a requalificação da Praça do Município, do que abrir a nova estrada do Boliqueime, ou estrear o saneamento básico na Vereda do Granel, ou atribuir bolsas para os estudantes universitários no próximo ano letivo, ou estender os manuais escolares gratuitos aos nossos alunos do Segundo Ciclo do Ensino Básico.

Este foi um bom orçamento, e 2018 será um ano bom também por causa dele. É por orçamentos como este que me dá tanto prazer aquilo que faço e que me sinto tão bem no trabalho que realizo ao serviço desta cidade. É por orçamentos como este que continuo tão empenhado hoje, como no dia 21 de Outubro de 2013, quando cá cheguei pela primeira vez, é com orçamentos como este que garanto que as medidas constantes do nosso programa eleitoral sufragado por maioria serão inteiramente concretizadas.

Hoje como sempre, será preciso uma enorme dedicação para chegar a bom porto, mas desde aquele mês de Agosto, não me falta vontade, nem a consciência que ganhei na altura de que nunca trabalhamos só para nós e de que não podemos chegar a lugar algum sozinhos. Nesse Verão, trabalhei bastante, mas não ganhei o suficiente para adquirir o Timex 48K. Foi o meu pai que me ajudou. Hoje, garanto-vos que continuarei a trabalhar muito, contando que cada um de vós acredite em mim, como o meu pai acreditou. Porque sozinhos, nunca chegamos a lugar nenhum.

Paulo Cafôfo

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