Lendas urbanas

01 Dez 2017 / 02:00 H.

À medida que a globalização vai acelerando a miscigenação cultural vamos assistindo a uma fusão de hábitos nacionais e importados mesmo no nosso quintal, cujo exemplo recente foi a celebração do dia de Todos-os-Santos. A convivência intergeracional neste dia feriado resgatado às garras da austeridade promove a mistura entre os motivos outonais e históricos do nosso tradicional Pão-por-Deus e o noctívago frenesim açucarado de narrativas de terror no americanizado Dia das Bruxas. Numa dessas lendas de fazer gelar a espinha aos mais novos, conta-se que quem, durante a noite, pronunciar por três vezes as palavras “Bloody Mary” em frente de um espelho evocará um ser sanguinário que sairá do espelho para arrancar-lhe os olhos e pôr termo à sua vida.

Também na política regional assistimos alguns actores a exorcizarem os seus demónios sempre que se deparam com uma oportunidade mediática, conjurando reiteradamente o nome de quem lhes atormenta o sono. Não será, portanto, de estranhar que uma certa cegueira grasse, fertilizada pelo pânico, a alimentar comportamentos dignos de uma noite de Haloween. No discurso, as mesmas criaturas que usufruíram da tradição de bater à porta do Governo Regional e carregar de iguarias financeiras o seu saco do pão-por-deus municipal para deleite dos seus orçamentos, agora metralham patranhas numa vã tentativa de justificar o evidente voltar de costas à cidade do Funchal e aos funchalenses. Fosse isto um conto de terror e dir-se-ia que o ex-presidente da CMF fora alvo de uma abdução alienígena e substituído por um sósia formatado pelo aparelho partidário que se confunde com a instituição Governo para presidir aos destinos da Madeira.

Senão vejamos: Onde está a pessoa que exigiu a devolução dos 5M€ de IRS retidos pelo GR? Onde está a pessoa que recebeu 71 M€ e defendeu os contratos-programa como instrumento primordial no desenvolvimento do Funchal? Onde está a pessoa que combateu os tarifários leoninos da água e do lixo aplicados às câmaras? Onde está a pessoa que facturou 9M€ em direitos municipais de passagem na electricidade, agora contestados? Onde está a pessoa que se insurgiu veementemente contra as obras na foz das ribeiras do Funchal? Onde está a pessoa que defendeu a necessidade da Cota 500 como fundamental factor de coesão social? Onde está a pessoa que jurou lealdade ao Funchal?

Definitivamente estamos na presença de uma outra pessoa que dissolveu a coerência nas vagas procelosas da travessia política entre os Paços do Concelho do Funchal e a Quinta Vigia, dedicando-se exclusivamente à manutenção de uma política de subsistência onde a discricionariedade e a efabulação desempenham um papel central. Pelo caminho contam-se várias narrativas assombrosas como a inumação de património centenário em sarcófagos de betão, trezentas nomeações e exonerações que mantêm em funcionamento permanente a porta giratória do executivo regional, um ferry encalhado no desinteresse de um concurso público para 13, meio hospital imaginário abandonado no papel da vitimização, um subsídio de mobilidade que mumifica distorções de mercado e muitas linhas garatujadas e declamadas de delírios anacrónicos que conjuram feitiços a fantasmas de inimigos externos.

A reafirmação de confiança democrática no trabalho desenvolvido nos últimos quatro anos tem sido mal digerida por aqueles que têm o dever institucional de governar para todos, sem discriminações. A realidade insular é que o magusto orçamental regional reserva, mais uma vez, os ouriços para o Funchal. O regressado vampirismo que obrigou à ocultação dos crucifixos da renovação consome-se na esperança de encontrar a bala de prata como penitência. Entretanto, nos corredores do poder sobrevivente, vão ecoando, qual disco riscado, as palavras que escalaram directamente para o topo da dialética política regional: “A culpa é do Cafôfo”.

Nota: Qualquer semelhança entre este conto de ‘Halloween’ e a realidade é uma infeliz coincidência.

Miguel Silva Gouveia Vereador da CMF
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