Ideologia ou Doutrina, o centro em questão

14 Abr 2018 / 02:00 H.

Nos últimos tempos , precisamente desde os preparativos do congresso do CDS que a questão da ideologia se pôs como forma de diferenciação e de abertura a novos espaços à esquerda de um partido que com Paulo Portas foi, e só, conservador.

Talvez por influência directa do “velho senhor” da democracia portuguesa, Professor Adriano Moreira, o CDS clarifica a sua posição “ideológica” e afirma-se claramente democrata cristão, aumentando o seu espaço político no sentido do centro esquerda. É, na minha opinião, uma aposta sem riscos ao aproveitar esta “janela de oportunidade” para cativar os “ desiludidos com a saída de Passos Coelho” e a inoperância de Rui Rio, pois a nova direcção do PSD está ainda muito discreta e com uma mensagem pouco clara para o eleitorado do centro, o que dá margem ao CDS para crescer. De facto, Assunção Cristas tem a vantagem de ter uma imagem que pode captar um maior segmento de eleitorado do que o clássico conservador que costuma votar no CDS. Basta afirmar o ideário democrata-cristão e divulgar e acreditar na doutrina social da Igreja.

O mandamento do amor, deixado por Cristo aos seus discípulos, é o principio primordial e fundante da ética social cristã. No vasto campo do amor, a Igreja quer estar presente com a sua doutrina social, que diz respeito ao homem todo e se dirige a todos os homens. A dimensão social é, por isso, inseparável do Evangelho e a Igreja não é indiferente a nenhuma das questões que estruturam a convivência humana.

Neste sentido, a intervenção da Igreja na realidade social realiza-se sem interrupções, desde o inicio do cristianismo. O diálogo vital entre o Evangelho e as diversas culturas levou a que as comunidades cristãs se encontrassem, desde o seu nascimento, diante de problemas complexos para os quais era necessário tomar posição. Contudo, a intervenção da igreja na dimensão social não nasceu como um conjunto ordenado de princípios e valores. Até meados do século XIX, a intervenção eclesial nas questões sociais dava-se de forma fragmentária e era sobretudo suscitada pelos questões particulares às quais ocorria responder, em cada momento da história. Só nos tempos modernos se começa a sistematizar e formalizar o corpo de doutrina social da Igreja, base e fundamento dos partidos democráticos cristãos. Primeiro na Europa e depois em todo o mundo cristão.

Todas as sociedades , em todos os tempos, puderam experimentar a força transformadora de que o engenho e a arte humana são capazes, mas de uma forma totalmente nova, o tempo moderno e contemporâneo assistiu a rápidas mudanças e transformações à escala global, e experimentou o desenvolvimento de sociedades cada vez mais abertas e dinâmicas.

A própria evolução do pensamento e das ideias contribuíram de forma estrutural para as mudanças realizadas. O renovamento do humanismo, o acentuar de igual dignidade dos homens e dos seus direitos, coloca o homem no centro da reflexão, como sujeito, como fundamento e como fim da vida social. Ao nível da reflexão teológica a doutrina do homem como “imagem de Deus” ocupa progressivamente um lugar de destaque como chave de leitura da questão antropológica.

Neste sentido a Doutrina Social da Igreja participa deste carácter histórico e evolutivo que lhe é essencial, na atenção permanente à doutrina revelada e aos sinais dos tempos para saber discernir as linhas orientadoras e os critérios de acção que devem reger a vida dos cristãos em sociedade, em cada tempo e em cada lugar, em cada cultura e em cada situação.

É este o desafio que se põe ao CDS. Sem dúvidas nem tibiezas.

Os princípios permanentes da doutrina social da Igreja constituem os seus verdadeiros eixos: trata-se dos princípios da dignidade da pessoa humana, no qual todos os demais princípios ou conteúdos da doutrina têm fundamento; do bem comum, da subsidiariedade e da solidariedade.

Estes princípios, expressões da verdade inteira sobre o homem conhecida através da razão e da fé, provêm “do encontro da mensagem evangélica e de suas exigências, resumidas no mandamento supremo do amor com os problemas que emanam da vida da sociedade”.

O CDS como partido Democrata Cristão pode e deve dar-lhes fundamentação e configuração cada vez mais acuradas, individualizando-os progressivamente no esforço de responder, com coerência, às exigências dos tempos e aos contínuos progressos da vida social.

Só assim a sua nova dinâmica poderá resultar e será expressão dos valores e princípios da sua fundação e abrir espaço a novos eleitores. Esta meta “será atingida com a realização da justiça social, mas contar-se-á também com a prática das virtudes que favorecem a convivência e nos ensinam a viver unidos, a fim de unidos, construirmos, dando e recebendo, uma sociedade nova e um mundo melhor”.

Estes são os objectivos que podem ser alcançados com divulgação e ensinamento.

Estou certo , também, que o CDS-M assumirá esta postura nas próximas eleições regionais e dará um contributo importante para que a maioria na A.L. não caia nas mãos de uma esquerda populista e demagógica que traria o caos à Região.

Com o PSD-M em queda, esta é a oportunidade para construir uma verdadeira alternativa coerente e sólida a um populismo vazio.

Com valores que constituem autêntica pilastra dos quais recebe solidez e consistência o edifício do viver e agir: são valores que determinam a qualidade de toda a acção política.

Não podemos perder mais tempo.

Roque Martins

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