Haja bom-senso

07 Mar 2018 / 02:00 H.

Muito se tem dito e escrito sobre alguns temas da atualidade, normalmente relacionados com promessas eleitorais na área dos transportes, colocando-se os prós e contras dos vários cenários sem, contudo, encontrar para as necessidades reais resposta viável e adequada. Normalmente as soluções apontadas pecam por megalómanas, deslocadas das reais necessidades ou insustentáveis devido ao seu custo.

Não sou de modo nenhum especialista em transportes, mas afiguram-se-me óbvias algumas questões que não vejo equacionadas pelos autores das várias propostas de solução que apareceram até este momento e que procurarei enumerar sucintamente:

Ferry para o continente

Parece-me irrealista pretender manter uma linha a funcionar todo o ano assente no transporte de passageiros e automóveis, quando obviamente as pessoas fazem férias predominantemente nos meses de verão pelo que, nos nove meses restantes o ferry andaria “às moscas”, como aliás já acontece com o Lobo Marinho. Assentando a lógica atual no transporte de passageiros, quando não os houver, a manutenção do serviço será inviável devido aos custos inerentes não suportados pelas receitas geradas, razão pela qual os concursos para a operação da linha ficam desertos. Desviar dinheiro do Orçamento Regional ou do OGE para suportar o prejuízo de exploração da linha parece-me perfeitamente injusto numa terra onde faltam os medicamentos e onde a imensa maioria dos cidadãos nunca pôs, e provavelmente nunca porá, os pés num ferry.

Contudo, se a lógica for diferente, se a tónica for no transporte de carga rodada, a situação muda de figura, pois as mercadorias são consumidas por toda a gente durante todo o ano. Quando a linha funcionou com o Armas, o preço dos “frescos” e demais mercadorias baixou nos supermercados; para além disso, faria concorrência ao atual transporte da responsabilidade do Grupo Sousa, o que necessariamente baixaria os preços do transporte marítimo. Mesmo que a linha tivesse de ser mais fortemente subsidiada, sê-lo-ia com muito maior justiça, porque o abaixamento consequente dos preços no supermercado beneficiaria toda a gente. Se eventualmente esta solução conflituasse com alguma legislação vigente, era por aí que se tinha que iniciar, alterando-a.

Lobo Marinho

A situação que referi anteriormente para o ferry, aplica-se também ao navio Lobo Marinho, que durante o verão anda “à cunha” e de inverno “às moscas”, com a agravante de todos os anos em janeiro o navio varar para manutenção. O armador afirma não encontrar no mercado um navio disponível para substituição no mês de janeiro porque alegadamente os possíveis navios também varam nesse mês. Parece-me uma desculpa de “mau pagador” pois se o armador estivesse realmente interessado em cumprir o contrato a que está obrigado, vararia noutro mês qualquer onde houvesse disponível um navio para substituição.

Por outro lado, parece-me absurdo e mal dimensionado o modelo de exploração do navio, pois, se no verão satisfaz as necessidades da linha, e no inverno anda vazio não sendo por isso rentável, porque é que nas outras três estações o Lobo Marinho não “faz pela vida” e como fazem os cidadãos, vai pelo mundo à procura de outros verões onde navegue cheio e seja rentável, como outros navios fazem. Nas outras três estações poderia ser substituído por outra embarcação de menor porte como do tipo do Mestre Simão (que garrou há dias nos Açores), ou outro com capacidade para uma dúzia de automóveis e uma centena de passageiros, adequado assim a oferta às reais necessidades. Será que não era possível ir buscar dinheiro à UE para adquirir outra embarcação?

Antes da existência do Lobo Marinho tivemos cá, justamente nos meses de verão, vários navios. Quem não se lembra do Alizur Amarillo ou de Lady of Man, que nos meses em que não estavam cá, iam trabalhar para outras paragens?

Transporte aéreo

Nos anos 80, por várias vezes, na sequência de greves na TAP, o GR fretou aviões a outras companhias, para assegurar as ligações aéreas a Lisboa. Lembro-me até que por vezes a FAP dava uma “ajuda” transportando passageiros do P.Santo, onde chegavam em aviões de maior porte, para a Madeira, onde não tinham a possibilidade de aterrar.

Pareceu-me uma excelente medida o afretamento pelo GR de aviões para o transporte dos estudantes e madeirenses em geral, sempre que houver manipulação da oferta pelas companhias que operam a linha, diminuindo o número de lugares de forma a subirem os preços. Quando subissem os preços das viagens a determinado limiar, o que é perfeitamente previsível à distância, realizar-se-ia um (ou mais) charters, de forma a normalizar a oferta e os preços.

Se o GR não estiver vocacionado ou puder fazê-lo, poderá sempre criar uma sociedade de desenvolvimento (turístico?!), que o faça por si, tal como o fez quando se quis endividar mais do que “a conta” e não o pode fazer diretamente.

P.S.

Para mudar um pouco o meu registo, normalmente negativo por ter dificuldade em encontrar geralmente razões para “dizer bem” do que de passa na Madeira, congratulo-me por ter assistido ao concerto realizado no passado dia dois no Teatro Municipal no âmbito do consistente programa de comemorações dos 130 anos da inauguração deste teatro, cuja terceira e última parte, foi preenchida por uma excelente composição do nosso jovem conterrâneo Pedro Macedo Camacho, feita especificamente para o evento. Lamento, contudo, que os melhores de nós só se possam afirmar fora da Madeira e que eventos deste gabarito tenham reduzido impacto na nossa comunicação social.

Helder Melim

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