Gentrificação

12 Fev 2018 / 02:00 H.

A palavra gentrificação (que em português poderia ter sido traduzida por afidalgamento ou fidalguização) deriva do termo ‘gentrification’, aplicado pela primeira vez em 1964 pela socióloga marxista Ruth Glass para descrever a substituição de alguma da população trabalhadora dos bairros de Notting Hill e Islington, em Londres, por uma classe de boémios endinheirados que foram ocupando e recuperando a seu gosto as modestas casas em banda que, na Inglaterra do século XIX, tradicionalmente albergavam o operariado. A gentrificação é um problema conhecido há longa data nas cidades da América do Norte, onde, frequentemente, adquiriu explosivos contornos de conflito racial. Pode dizer-se, aliás, que é um problema inerente a todas as grandes metrópoles das economias de mercado e que não se resolve com receitas de aplicação universal. Resolver-se-ia, possivelmente, com a colectivização da totalidade dos solos urbanos e a abolição da propriedade privada, mas a história deu-nos a conhecer o preço e o sabor desta mirífica receita.

No nosso país, o termo tem andado na ordem do dia desde o momento em que o imobiliário começou a atrair investimento estrangeiro e o turismo a crescer a um ritmo considerável. Em alguns bairros de Lisboa e do Porto, iniciou-se um processo de gentrificação e, em certos casos, também, de “turistificação” (que não deixa de ser uma forma de gentrificação). A população com menor poder de compra que habita os centros mais apetecíveis dessas cidades, muitas vezes casas em precário estado de conservação, vai sendo pressionada a sair. Do meu ponto de vista, nestes casos, cabe ao Estado intervir. Não para impedir o investimento nos bairros, mas para o enquadrar, promovendo a reabilitação do que tiver valor patrimonial e protegendo os mais vulneráveis, aqueles que não podem ou não sabem defender-se. É sabido que densificando o centro e melhorando as condições de vida de antigos e novos habitantes, a cidade lucra no seu todo.

Afirmam alguns que um bairro não é apenas um tecido urbano - casas, praças e ruas - mas também um tecido social constituído pela população que nele vive e que, em alguns casos, nele trabalha. Substituir esses residentes, obrigá-los a abandonar a casa onde, por vezes, nasceram, corresponderia, portanto, a uma descaracterização do bairro, a uma perda da sua “identidade”. Mais uma vez, cabe aqui ao Estado, e em particular às autarquias, um papel de mediação e protecção dos mais frágeis. Convém, todavia, ter sempre em mente que a “identidade” de um lugar, encarada como permanência que sobrevive às convulsões da história e ao suceder das gerações é, no mínimo, uma ideia bizarra. Alfama, com as suas casas recuperadas, transformar-se-á, provavelmente, num bairro com uma população residente maioritariamente estrangeira. Será isso uma tragédia?

Não creio. Alfama, “al-hammã” é uma palavra herdada dos árabes que designava a “fonte de água quente” que ali existia. Onde está essa fonte? Onde estão os árabes? Onde estão os judeus que, mais tarde, no bairro encontraram refúgio? Onde está o pátio das cantigas, a mercearia do Evaristo e a menina Rosa balconista? São sempre muitos os herdeiros da presumível identidade de um bairro milenar. Alguns estarão, provavelmente, na Medina de Fez, outros em Jerusalém, S. Salvador da Bahia ou mesmo em Massamá. Toda a história humana é uma longa viagem sobre a terra feita de migrações, conquistas, guerras e gentrificação, mas também de acolhimento e miscigenação.

Rui Campos Matos
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