Femininos de luta

As mulheres são mais de metade da população, estão em maioria nas universidades, têm as melhores notas, mas a descriminação continua no trabalho

15 Mai 2018 / 02:00 H.

Quarenta e quatro anos passados, quando a natural erosão do tempo vai mitificando os episódios da luta pela democracia, e se assiste a um certo desencanto e conformismo, é pertinente refletir-se sobre o lado feminino de Abril. Nos registos mediáticos da Revolução, a participação da mulher ficou-se pelo gesto simbólico da vendedora de flores a distribuir cravos vermelhos aos militares nas ruas de Lisboa... As mulheres não fizeram parte do elenco operacional revolucionário militar, universo que como outros lhes era vedado. Ficaram-se pelo anonimato das multidões entusiasmadas, figurantes do cenário dos acontecimentos desse “dia inteiro e limpo”. Nem chegaram à Junta de Salvação Nacional. As questões da igualdade de género estariam muito para o fim das prioridades do MFA. A revolução de 74, tal como a primeira república, não incluiu a mulher de igual para igual. O legítimo direito a pensar por si, a partir de si, dos seus sonhos, aspirações e sentimentos, a poder escolher o seu destino, a poder participar de pleno direito em todas as esferas da sociedade, saiu da luta inspiradora das mulheres.

Nada tem sido fácil nesta luta pela igualdade. No papel há algumas conquistas civilizacionais consagradas, mas o precisarmos discutir, debater questões ainda não respeitadas, é sinal de que falta ainda muito a fazer. As mulheres são mais de metade da população, estão em maioria nas universidades, têm as melhores notas, mas a descriminação continua no trabalho, nos salários, nas carreiras profissionais. A questão da conciliação profissão / família é vista mais como um problema das mulheres trabalhadoras, porque aos homens ninguém pergunta como consegue cuidar dos filhos, da casa e ter uma carreira. Falta ainda educar para uma efetiva partilha de papéis entre mulheres e homens, ao nível da tomada de decisão em todas as esferas da vida da sociedade, sem condescendências, generosas prerrogativas ou magnânimas concessões. Não basta mudar as leis, porque medida legislativa não significa mudança cultural: para isso é preciso mudar o interior das nossas cabeças, mulheres e homens. É sobretudo uma questão cultural onde há muito de mito, de preconceito, de estereótipo, questões bandeira da luta feminista, para uma efetiva concertação social que consagre na contratação coletiva, as questões da parentalidade, da conciliação do trabalho com a vida pessoal e a família, para mulheres e homens.

Apesar das leis consagradas há ainda uma visão passadista, conservadora, vestígios culturais da sociedade patriarcal balizada pela tradição, onde a mulher era (é?) vista como propriedade masculina, um destino feito muitas vezes de submissão, prepotência e arbitrariedade. O princípio da paridade na participação da mulher na esfera política (lei de 2006) ainda não é aplicado no todo nacional: veja-se a ALM. E que dizer dos números alarmantes da violência contra a mulher? Lutar pela desconstrução dos papéis tradicionais, limitadores da ação e dos direitos de mulheres e homens é uma questão de desenvolvimento e modernidade. É responsabilidade cidadã de homens e mulheres, enfrentar as crescentes desigualdades que a globalização da economia, o capitalismo selvagem sem regras, a desregulação das relações laborais, (o fosso salarial entre CEOs e simples trabalhadores!), os desafios do avanço tecnológico, etc., coloca no dia-a-dia ao cidadão comum. Foi por causa “do estado a que isto chegou”, que se fez o Abril que agora vai ganhando auréola mítica, mas nos conferiu a obrigação de lutar pelo que é justo. E se muito foi felizmente alterado no entretanto, a luta contra novas e velhas injustiças permanece atual, apesar da displicência dos cínicos. A utopia será sempre necessária.

Júlia Caré

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