“Estado de incúria”: o nosso terrorismo doméstico

13 Set 2017 / 02:00 H.

O Estado tem o dever de proteger os cidadãos. Na sua arquitectura orgânica o Estado tem várias ramagens, que se organizam para a observância dessas funções primordiais.

Depois das 64 vítimas de Pedrógão, houve no Funchal pelo menos mais 13 vítimas mortais do Monte no passado dia 15 de Agosto. Um Estado que se permite que isto aconteça, tem ramagens doentes, que necessitam duma profunda poda, ou um urgente tratamento sanitário. Durante a comunhão eucarística e do entoar do refrão do cântico “A Cheia de Graça (...) Estrela do Céu”, no passado dia 15 na Igreja do Monte, uma árvore tombava, arrastando para a morte mais duma dezena de vidas, transformando um recinto de peregrinação e festa, num cenário de horror.

Não vale a pena apelidarem de abutres, aqueles que se descolam do mero aspecto contemplativo no muro das lamentações e do sofrido luto, apenas porque questionam as responsabilidades, e que sinalizam o primeiro discurso da sacudidela do capote que o presidente da Câmara vergonhosamente proferiu “urbi et orbi”. Relembro que em Agosto de 2010, mesmo antes do sangue coagular no Largo das Palmeiras em Porto Santo com uma morte e um ferido grave que viria a falecer meses depois, as mesmas vozes agora recatadas ao politicamente correcto e comprometidas com a actual gestão municipal, já indicavam a Roberto Silva - então edil da “ilha dourada” - o caminho da expiação ao próximo Pelourinho onde deveria ser linchado. Recentemente em Barcelona massacraram-se vítimas dum atentado terrorista, mas aqui, temos uma espécie de “terrorismo da incúria”, consentido pelo Estado que denuncia uma anomalia grave a olho nu, cuja copa verde do Éden, apenas se vê em cartazes. Maior é esta convicção, quando o Ministério Público (MP) mostra um comportamento ziguezagueante, errático, apático, sem acautelar o mais básico sentido de responsabilidade desde as primeiras horas após o trágico evento. De facto quando se observa a “bandalheira” deste MP, o que se pode esperar disto? Honrar a memória dos que partiram, é também garantir justiça célere, e que outros desafortunados não se sucedam em malfadado destino. Mais do que vacilar na Fé dos que ali se deslocaram em demanda, ou agradecimento de graça divina, é desconfiar dum Estado que não acautela as suas funções, ainda para mais, quando os seus titulares, andam por aí no porta-a-porta a mendigar “Confiança”, algo que evidentemente não inspiram.

Donato Macedo

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