Estabilidade e Investimento

Se queremos atrair o investimento estrangeiro relevante temos de ser também exemplo de investimento

09 Nov 2017 / 02:00 H.

Na semana em que uma Lisboa inflacionada recebe um evento tecnológico internacional que, neste momento, não sei se estará mais virado para o empreendedorismo se para o turismo, o Governo anuncia medidas específicas de captação de investimento estrangeiro, num discurso de incentivo que invoca estabilidade política e económica, a qualidade de vida e segurança que Portugal oferece, bem como a redução da burocracia, recentemente criticada por uma grande celebridade internacional que procurava o visto de residência.

Não sendo o habitual para esta época do ano, o clima tem estado maravilhoso e a cidade vive uma dinâmica de um turismo emergente que evita destinos tradicionais agora menos seguros e de maior instabilidade. O país vive uma espécie de euforia instantânea num ambiente de oportunidade imediata que não quer desaproveitar. Creio, no entanto, que será prudente questionar a consistência ou, pelo menos, lançar uma reflexão em torno dessa anunciada estabilidade, procurando perceber até que ponto, nas circunstâncias atuais, existe e será suficiente para gerar a confiança necessária para estimular um investimento estrangeiro criterioso, sério, sólido, duradouro, responsável e ponderado, o único que verdadeiramente interessa ao país. É evidente que ninguém pretende o investimento inconsequente ou o investimento esquizofrénico, egoísta e oportunista que procura o aproveitamento das fragilidades do país. Queremos um investimento integrado que possa crescer de forma sustentada e equilibrada com o país, com os portugueses e com a nossa economia.

Ora, devo dizer que me parece absolutamente precipitado falar já em estabilidade económica. Não obstante a nossa economia ter vindo a beneficiar de uma conjuntura altamente favorável, a verdade é que todos sabemos, e sentimos mesmo, que continua muito sensível, procurando aproveitar todos os estímulos que não lhe dão ainda a consistência que necessita para assegurar um crescimento relevante sustentado, orientado para uma sustentabilidade duradoura de equilíbrio e segurança próspera. Devo dizer que me parece que continuamos a ter uma visão muito imediatista da nossa economia, assente em conceitos fechados, redutores, muito pouco abrangentes e em instintos de subsistência pouco sustentados, com representações numéricas demasiado inócuas e desligadas.

Não tenhamos ilusões, o investimento estrangeiro que interessa é muito mais exigente e não age e reage por impulsos. Procura a estabilidade duradora da economia e das instituições, espera estabilidade legislativa, uma justiça que funcione numa sociedade de equilíbrios. O investimento estrangeiro que verdadeiramente interessa à nossa economia é ponderado e exigente e, mais que um quadro imediato favorável, espera, acima de tudo, que os pressupostos em que assentou a decisão de investimento não se alterem rapidamente e que não desapareçam.

O investimento estrangeiro procura uma estabilidade política que assenta, antes de mais, e acima de tudo, na força e no respeito pelas instituições e valores democráticos, bem como na confiança do povo no funcionamento dessas instituições. Procura segurança e qualidade de vida. E todos sabemos que a segurança europeia assenta atualmente em fatores quase imprevisíveis que não são, por si só, garantia de investimento duradouro. Para além disso, continuará a ser muito difícil defender qualidade de vida num país em que a saúde está em colapso absoluto, sem dignidade, com condições quase desumanas e episódios de grande irresponsabilidade que causam mortes trágicas nos hospitais.

Se queremos atrair o investimento estrangeiro relevante temos de ser também exemplo de investimento, não podemos deixar de investir em sectores fundamentais como a saúde, a educação e a justiça, num quadro de equilíbrio fiscal, com políticas de verdadeiro incentivo que assegurem a igualdade de tratamento e o crescimento sustentado.

Enfim, se é verdade que me parece importante a intenção de captação de investimento externo no nosso país, não posso deixar de dizer que não podemos viver a ilusão interna de uma estabilidade que ainda não foi alcançada. O país tem ainda um longo caminho a percorrer.

Brício Martins de Araújo
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