Escola de Outubro

Talvez se deva questionar mitos, ideias feitas, nostalgia da escola do antigamente

13 Out 2017 / 02:00 H.

Para além das rotinas habituais do início do ano letivo, este ano o ministério da educação enviou às escolas os relatórios sobre as provas de aferição de 2017, (REPA e RIPA), uma importante informação da avaliação externa, que partindo da análise das respostas dadas pelos alunos, pretende fazer perceber os pontos fortes e fracos da orgânica educativa, o que é preciso melhorar ou mudar no trabalho pedagógico da escola e no desempenho dos alunos, na era digital. Porque, antes dos resultados dos exames finais, dos quadros de honra e da legítima atribuição de prémios de mérito, importa monitorizar e aferir, para permitir reformular e orientar o mais precocemente possível, o correto desenvolvimento individual das capacidades de aprendizagem de cada aluno, responsabilidade fundamental do sistema educativo.

Já se verificou que as retenções, repetências e chumbos, para muitos sinónimo de qualidade, rigor e exigência se convertem mais em mecanismo de exclusão, do que em estratégia de aprendizagem. E que a acumulação quantitativa de mais horas desta ou daquela matéria, de uma forma generalizada e uniforme, não constitui por si só, solução para o sucesso. Os números do insucesso e do abandono escolar, a insuficiência de especialização que o nosso país ainda apresenta, quando comparado com os seus parceiros mais avançados - pese embora o muito que se evoluiu nos últimos quarenta anos - obrigam a percorrer caminhos que procurem potenciar a diversidade, a multiplicidade de talentos, capacidades, inteligências e culturas de que a população se constitui. Poderão estes relatórios da avaliação aferida converter-se num instrumento coerente de mudança para a melhoria? E que dizer do funcionamento tradicional da escola: alunos organizados em turmas, aulas de dinâmica uniforme, com tempos definidos, limitados, como se aprender fosse uma atividade cronometrada a cada 45 ou 90 minutos, pontuada pelo toque de campainha, por pausas trimestrais, tudo determinado pelo rígido calendário escolar superiormente emitido...? Talvez se deva questionar mitos, ideias feitas, nostalgia da escola do antigamente, formatada numa lógica uniforme de organização, funcionamento e destinatários... É com expectativa que se encara o desenrolar do novo projeto de flexibilização curricular, em experimentação em algumas escolas... Sabe-se que novas formas de trabalho que despertem curiosidade e gosto de aprender e respeitem os ritmos de aprendizagem de cada aluno, assim como uma organização diferente da escola e da sala de aula têm dado bons resultados, permitindo ainda aprender a cooperar mais, a ajudar, a preocupar-se com o outro e não tanto em competir...

O ser humano é único nas suas capacidades, diverso nas suas características, mas dotado de talentos que a escola deveria ajudar a por cá fora, a desenvolver em prol da realização, felicidade e bem-estar individual e coletivo. Este é na essência o mandato ético da Escola. O conhecimento científico e a experiência têm-nos fornecido os indicadores dos problemas que ainda não fomos capazes de solucionar, pesem as reformas políticas, as verbas – sempre escassas – envolvidas, as mais das vezes mais retórica e senso comum vazio. A verdade é que as circunstâncias pessoais, familiares e sociais determinam muito do desenvolvimento e desempenho escolar. Os recursos económicos também. E quando temos cerca de 60% de alunos apoiados pela Ação Social Escolar, (em alguns casos diz-se ser da ordem dos 90%), esta é uma prova das profundas desigualdades sociais que persistem no nosso país em grandes franjas da população, onde a pobreza se reproduz num ciclo vicioso infernal, uma infeliz negação de oportunidades, de cidadania e de justiça que rebentam na sala de aula e condicionam os percursos escolares. Falta operar a redistribuição da riqueza do tão repetido crescimento económico dos nossos dirigentes, para que o desígnio da educação, enquanto mecanismo reconhecido de elevação, integração e inclusão social, e de democracia, se cumpra!

Júlia Caré

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