É a economia neoliberal geradora de desigualdade?

13 Mar 2018 / 02:00 H.

Este modelo de ideias políticas e económicas que advoga a presença mínima do Estado, defende que o próprio mercado auto-regulará os processos de produção, de distribuição, de repartição e de consumo. É na década de setenta do século passado, que a escola monetarista de Milton Friedman vê neste modelo uma saída para a crise provocada pelo elevado aumento do preço do petróleo, o qual havia de fustigar a economia mundial no ano de 1973. Mais tarde, nas décadas de oitenta e noventa, através de Margareth Thatcher no Reino Unido e Ronald Reagan nos EUA, o neoliberalismo emergiria em força, tornando uma boa parte dos dois lados do atlântico, servos deste modelo económico. Assistia-se à supremacia do capitalismo sobre o Socialismo e essa circuntância permitia-lhe ditar as regras da economia. A participação mínima estatal no rumo da economia, a pouca intervenção dos governos na relação laboral entre empregados e empregadores, a privatização de empresas estatais, o “milagre” da globalização, o fim do protecionismo económico, a diminuição da dimensão do Estado, o aumento da produção e do consumo e a aceitação de que é o mercado que fixa os preços em função da oferta e da procura, são as bandeiras, entre outras, do neoliberalismo. Este modelo, que para os países ricos até pode resultar, porque a grande maioria da população tem a sua existência dignamente assegurada, nos países pobres (eufemisticamente chamados de emergentes), o que acontece é que os pobres ficam mais pobres e o seu número aumenta significativamente e os ricos ficam mais ricos, esmagando e controlando tudo em seu redor. A iniciativa privada, o empreendedorismo, são salutares e desejáveis, no entanto o problema coloca-se quando essas dimensões operam em ”roda livre”, sem qualquer controlo ou com controlo deficiente, ambiente em que a doutrina neoliberal é “especialista”. Relembremos o ano de 2008, onde a paternidade da crise dos mercados financeiros, conhecida como “sub-prime”, deveu-se à total desregulação do sector financeiro, a qual deu os primeiros passos nos anos noventa, colocando as economias mundiais à beira de um colapso, tal foi o efeito perverso provocado pela desregulação promovida e “incentivada” pelo neoliberalismo. A receita para resolver o problema, foi a imposição de uma austeridade desumana e até “ilegal”, (se quisermos atender ao facto de até as reformas de baixo valor dos pensionistas serem alvo de cortes, reduzido-as onde não havia margem para reduzir), onde mais uma vez quem sofreu foi o povo, leia-se a população mais necessitada, pois para as grandes fortunas, a austeridade são cócegas. Transfira-se este modelo para economias pequenas e de uma enorme fragilidade como é o caso da RAM e o caldo fica completamente entornado. A inciativa privada é necessária e bem vinda, mas num ambiente em que os reguladores estejam efectivamente na posse de instrumentos eficazes de monotorização e sancionamento, e actuem sem olhar a quem, exibindo assim o seu genuíno empenho em defender os cidadãos. Caso contrário, são os próprios governos, eleitos democraticamente, que ficam reféns dos empresários, o que constitui uma subversão dos príncipios mais elementares da democracia, aos quais todos devemos prestar cuidada atenção e tomar, se necessário, posição para o impedir.

Fernando Rodrigues