Dreaming of a White Christmas

Como diria Bing Crosby: I´m dreaming of a White Christmas!

08 Dez 2017 / 02:00 H.

Depois de ter surgido nos Estados Unidos da América, a Black Friday alastra-se, espalha-se e propaga-se pelo Mundo fora e rapidamente dá lugar a sucessivas Black Weeks que anunciam descontos significativos em diversos bens e serviços, procurando estimular as vendas incentivando a compra numa época de consumo compulsivo, intenso e quase irracional que se transforma num verdadeiro Black Christmas em que as pessoas são quase empurradas e levadas por impulso para processos instantâneos de compra, muitas vezes dispostas a enfrentar firmemente uma série de dificuldades, desde as inquietantes filas de trânsito à porta dos centros comerciais, às filas de estacionamento, filas de prova, filas de pagamento, filas de papel de embrulho e filas de troca. Entretanto surgem as notícias de aumentos intencionais de preço por forma a aplicar depois um desconto que acaba, assim, por ser fictício, surgem as notícias de ruturas de stock intencionais em descontos anormais anunciados apenas para atrair a procura, num absorvente processo de massas que se prolonga em ilusões, reclamações e desilusões. Surgem os alertas das entidades de defesa do consumidor, que na Madeira acaba de lançar a campanha “Festa Segura”, surgem as notícias de processos de contraordenação em ações de fiscalização que identificam infrações graves de operadores económicos. De uma maneira muito simples diria que cada vez mais se procura estimular a irracionalidade e o impulso em processos de compra absolutamente desassociados dos conceitos de necessidade, essencialidade, ponderação e adequação que transformam tudo numa espécie de furacão negro, muitas vezes associado, também, a créditos pessoais que convidam a um novo e sempre perigoso endividamento instantâneo.

Sempre defendi uma economia viva com estímulos, mas transparentes, racionais e ponderados, e tenho, naturalmente, muita dificuldade em aceitar qualquer campanha desenfreada de consumo egoísta que ultrapasse todas as regras de razoabilidade, equilíbrio, ponderação e transparência, ainda para mais numa quadra em que outros valores e princípios se deveriam impor e prevalecer, independentemente de quaisquer credos religiosos ou crenças pessoais. Não me revejo nesta tremenda confusão que nos procura afastar e retirar do essencial. Confesso-me um profundo admirador e defensor da tradição espanhola que deixa a troca de presentes para a noite do Dia de Reis. É uma tradição que permite que nos possamos concentrar agora nos verdadeiros valores e princípios do Natal, de solidariedade e de amizade, de paz e de humildade, de gratidão e de verdade, de tranquilidade.

Espero que possamos verdadeiramente reduzir o nosso tempo de consumo exuberante, transformando-o em tempo de partilha, de gestos simples e de afetos genuínos, de serenidade, de paz, de tolerância, de humildade, de solidariedade e atenção para com aqueles que, muitas vezes de uma forma tão violenta e injusta, se encontram privados de afetos. Que este seja, acima de tudo, para todos, um período de partilha tranquilo e de grande simplicidade, de memórias vivas. Como diria Bing Crosby: I´m dreaming of a White Christmas!

Brício Martins de Araújo