Dois Mil e Tal

01 Jan 2018 / 02:00 H.

A música “Nothing Ever Happens” dos Del Amitri entoa em fundo, num tom premonitório, por entre o rebuliço natural de mais um repasto natalício. A bem-disposta cavaqueira orbita em torno do que nos há de reservar o ano de 2018. A conversa jogada fora, à volta da mesa farta ou no banco de suplentes da bisca, por uma mancheia de aspirantes a videntes, avança prognósticos para atender a todos os gostos, sempre plenos de convicção. A criançada, indiferente ao conjurar de um futuro que será invariavelmente o seu, entretém-se com os brinquedos recém-trocados. Em fundo, o grupo escocês canta, em refrão, “the needle returns to the start of the song and we all sing along like before”, cabendo-me a mim, que nunca tirei mais do que um 8 no totobola, arriscar a minha opinião.

A nível internacional, antecipo tempos árduos para a nossa diáspora. Na Venezuela, as nossas comunidades vêem acrescer às avultadas perdas na banca portuguesa (BES e BANIF), a degradação do tecido económico e, pior, da paz social no país que os acolheu. A incerteza do Brexit preocupa, por sua vez, os nossos conterrâneos em Inglaterra, quer pela perda do poder de compra, quer por eventuais restrições no acesso ao mercado de trabalho. 2018 será, por isso, sem dúvida, um momento fundamental dos tempos modernos para zelar pelos nossos “filhos saudosos”, os mesmos que, ao longo de décadas, têm erguido o nome da ‘Madeira’ no mundo como uma marca de trabalho e competência e aos quais não poderemos, agora, sonegar o nosso compromisso e toda a nossa diligência.

Em Portugal, as contas serão diferentes, e o mesmo Primeiro-Ministro que montou uma geringonça parlamentar para reciclar o rating financeiro da República prosseguirá, para desespero de muitos, a acelerar os indicadores económicos, como o Tabaton fazia com o seu Lancia no Paul da Serra. De rallies para futebóis, 2018 será ano de contar mais uma epopeia lusa, desta vez em terras da Rússia, ao passo que, da ilha para o mundo, será o Marítimo a continuar a ganhar “do outro lado do mar”, com a conquista de um inédito 4º lugar na Liga.

A Madeira continuará a ser o cantinho do céu num mundo onde todos os pecados são importados e os seus números continuarão a ser torturados até confessarem a verdade conveniente aos seus algozes. Trocando as voltas à teoria keynesiana, será fomentado o investimento público em pleno ciclo de expansão económica, desengavetando velhas obras malparadas com recurso a crédito novo. Keynes nunca teve eleições para ganhar.

No Funchal, muitos serão os interessados em puxar o tapete à CMF, particularmente aqueles para debaixo do qual varreram décadas de gestão inconsciente. As coligações negativas têm o condão de fortalecer o espírito de equipa e a resiliência do projecto. O que não nos mata torna-nos mais fortes e, no Funchal, é certo que 2018 será marcado pela manutenção de um rumo claro, com pujança económica, dinâmica cultural, mais inteligência social e com uma consciência cívica amadurecida.

A nível político, a campanha suja das últimas autárquicas desferiu mais um golpe na periclitante credibilidade da classe. Ataques pessoais, insinuações vis, acusações anónimas, perseguições por delito de opinião e a mercantilização de apoios eleitorais confirmam que a saúde da convivência democrática está enferma de valores. Com a quantidade de eleições internas em agenda, não me parece que a cura seja descoberta já em 2018.

Por seu turno, a natureza das coisas, incluindo a humana, permanecerá imutável. A água de ribeiros, redes e barragens correrá teimosamente para o mar, enquanto a chuva for gratuita. O sol nascerá para todos e produzirá energia a tarifas subsidiadas para alguns. Os pobres serão solidários e os saciados continuarão a comer. A verdade doerá.

E a memória... será curta?

Miguel Silva Gouveia Vereador da CMF