Do útil e do belo

A generosa ideia de Ventura Terra perdeu-se para sempre. Os resultados (e os tetrápodes) estão hoje à vista de todos

10 Nov 2017 / 02:00 H.

Com uma exposição em Lisboa, Ventura Terra, arquitecto - Do util e do bello, celebraram-se em 2017 os 151 anos do nascimento do arquitecto. Para além de obras emblemáticas como o Palácio das Côrtes (actual Assembleia da República), Ventura Terra é o autor do Plano Geral de Melhoramentos do Funchal, razão pela qual, antecipando-se às actuais comemorações, a Delegação da Madeira da Ordem dos Arquitectos levou a cabo em 2015 uma exposição alusiva aos 100 anos do Plano. Tratou-se de dar a conhecer aos madeirenses a importância e significado que a obra deste arquitecto teve para o Funchal,

Formado em Paris, Terra olhou para o Funchal como um velho burgo insalubre cujo traçado havia que corrigir para o adaptar aos novos tempos do automóvel e do turismo. Para o arquitecto, eram inúmeros os sinais de atraso que a velha urbe apresentava: ruas tortuosas; inexistência de grandes parques públicos; e a relação informal da cidade com o mar - uma praia onde varavam dezenas de pequenas embarcações e um cais incapaz de acolher o crescente número de passageiros em trânsito.

As medidas propostas resultaram radicais: vastos boulevards rasgariam o tecido intricado da urbe resolvendo os problemas viários. A praia seria substituída por uma «bela avenida marginal, com 50 metros de largo por 1255 metros de comprimento»; a ribeira de João Gomes, depois de encanada, daria lugar também a uma avenida; a Rua da Carreira seria alargada; e, a nascente e poente do centro, surgiriam dois parques urbanos. O modelo era a Paris de Haussman e ao Funchal pretendia-se dar a eficácia e o brilho da cidade luz. O Plano viria a influenciar todas as decisões que, a partir daí, a capital do arquipélago tomou sobre o seu destino,

A unanimidade reinou na abertura da Avenida Marginal, a imponente fachada atlântica que Ventura Terra idealizou para o Funchal. A solução inspirava-se nos boulevards marginais de outras estâncias europeias que, correndo ao longo da praia, repercutiam a curva natural das enseadas: o Paseo de la Concha em San Sebastian, o Boulevard des Anglais em Nice, o de la Croisette em Cannes e tantos outros. Do forte de São Tiago à foz da Ribeira de São João, demorou quase um século a construção da generosa avenida que, de acordo com o desenho de Terra, poderia ter vindo a ser um magnífico passeio panorâmico à beira mar.

A aluvião de 2010 foi a tragédia que esteve na origem da destruição da Avenida do Mar. Poderia ter sido a oportunidade de finalizar o projecto de Ventura Terra. Uma equipa multidisciplinar, convocada de emergência, poderia ter lançado o programa de um concurso internacional que apresentasse à população e ao seu governo um leque fundamentado de soluções. O Funchal teria tido, então, a oportunidade de, democraticamente, se pronunciar sobre o que queria para o mais importante dos seus espaços públicos. Nada disto, porém, se concretizou. Encarada, por um poder discricionário e analfabeto, como um problema de engenharia marítima e hidráulica do qual fazia parte a criação de um novo cais de acostagem e o encanamento das ribeiras, a generosa ideia de Ventura Terra perdeu-se para sempre. Os resultados (e os tetrápodes) estão hoje à vista de todos.

Rui Campos Matos
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