De Santana ao Rio

06 Dez 2017 / 02:00 H.

“Nesta terra basta um fazer que os outros já vão fazer igual”. Tanto eu como o leitor já devemos ter ouvido esta expressão umas centenas, senão milhares de vezes.

É frequente depararmo-nos com projetos que depois de um propagado e muitas vezes avultado investimento inicial, por qualquer motivo não chegam a bom porto ou não chegam a ter o impacto e rentabilidade desejados. As mais das vezes esses projetos, normalmente empresas, sofrem de um mal comum, a que elegantemente chamaremos de Hábito do Foco em Terceiros - daqui em diante designado apenas por HFT. Este foco, que não se confunde com o estudo normal e prudente da concorrência numa perspetiva empreendedora, não mais é do que uma mera fixação nos outros com a conotação que a expressão “nos outros” deixa antever.

Naturalmente, este HFT não é um hábito exclusivo nosso e pode desenvolver-se em qualquer lado. Seja na nossa pacata cidade de Santana, seja em metrópoles como Madrid, Nova Iorque ou Rio de Janeiro, qualquer lugar é um bom lugar para desenvolver este costume. É um hábito das pessoas.

Em meu entender, a observação e comparação com terceiros, sejam empresas ou pessoas, são inevitáveis porque vivemos em comunidade e em maior ou menor medida, dependemos sempre uns dos outros. A grande diferença faz-se através do produto que se obtém destes exercícios de observação e comparação e que das duas uma: ou trabalhamos esse produto de forma a criarmos empresas inovadoras e competitivas ou limitamo-nos a imitar, desvirtuar e eventualmente desdenhar o que está à nossa volta, com séria tendência para o HFT. Enquanto a primeira é saudável e potencia o desenvolvimento, a segunda, além de ser contraproducente e tóxica, torna-se um sério entrave ao desenvolvimento de qualquer empresa e ao bem-estar generalizado.

Do que venho de dizer, é fundamental que o foco esteja nos objetivos e metas dos próprios projetos. Parece óbvio e natural, mas a observação diária indica o contrário. Só através dessa ótica se podem construir projetos bem estruturados, consistentes e verdadeiramente de sucesso. Quem quer fazer a diferença, tem de ser antes de tudo diferente e isso só se consegue com arrojo e ideias próprias. Fazer o que os outros fazem, só nos levará - no cenário mais otimista - até onde os outros foram. Os exemplos destas premissas são claros e dispensam enunciações, basta olhar à volta. Dos que padecem de HFT não reza a história e a escolha em fazer a diferença é sempre nossa. Independentemente do lugar.

Desculpem-me os estimados santanenses com a escolha do título, mas o exemplo foi meramente aleatório e nada me leva a crer que Santana seja melhor ou pior que os outros lugares. Isso e o irresistível trocadilho.

Cláudio Gouveia