“Cruzeirar” ou não “cruzeirar”

18 Out 2016 / 02:00 H.

Não percebo – actualmente – porque tanto querem as agências de viagens os cruzeiros. Há cada vez menos passageiros interessados em shorex (shore excursions), e as margens estão perfeitamente esmagadas. Posto por outras palavras, os clientes pagam – e bem – pelas excursões que compram a bordo, mas o agente recebe uma parte ínfima do que foi pago, e daqui tem de pagar todas as despesas.

E vejo as agências a digladiarem-se, e a oferecerem-se para baixarem preços – e tudo isto é cumprimentar com o chapéu alheio. A preços mais baixos ao navio, correspondem preços mais baixos a toda a cadeia de fornecedores: os fornecedores de autocarros são “informados” que vão passar a receber menos pelos seus serviços, os guias são chantageados (sim, eu disse chantageados) no sentido de aceitarem tabelas progressivamente mais baixas.

Como é que o director de uma agência reagiria se um guia lhe entrasse pelo escritório e lhe dissesse que o seu salário era demasiado alto, e que portanto iria receber menos tanto, ou um cliente se sentasse ao balcão da agência e lhe explicasse que ia fazer uma excursão, mas que o preço era o que ele, cliente, estava disposto a pagar?

Da parte do destino, já me tentaram convencer que o sector de cruzeiros interessa porque promove a Madeira junto de futuros/potenciais visitantes. A minha dúvida, neste campo, é se esta promoção interessa em termos de estratificação dos mercados. O público cruzeiros é cada vez mais caracterizado por rendimentos baixos e a disponibilidade para gastos é mínima. Este público não está interessado na Madeira (os voos são demasiado caros) e não interessa à Madeira (porque não gasta o suficiente per capita).

A Madeira está neste momento, por incúria dos gestores do sistema, na posição extremamente incómoda de ter preços e necessidades de destino de nicho, mas ser demasiado frequentada (e mal frequentada) para o ser. Assiste-se pois a uma desadequação entre a oferta e a procura que só funciona, neste momento, porque a concorrência tem outros problemas – como sejam explosões, golpes de estado ou voos demasiado longos...

Neste momento, o mercado de cruzeiros interessa a quem viaja e a quem organiza. Porque para os operacionais, e para os trabalhadores a bordo, não é modo de vida.

Roberto Loja

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