CR7 2023

Não há sorriso ou correria que resista se CR7 se resolver candidatar à Presidência do Governo Regional. Quem concorre nesse dia?

14 Jan 2018 / 02:00 H.

Na América, Oprah Winfrey discursa nos Globos de Ouro. Para surpresa dos inocentes, opõe-se ao assédio sexual, e recorda a caminhada dos desfavorecidos e excluídos da América prometida, onde às tantas – e apesar dos seus triunfos – se inclui.

Abrem as parangonas: Oprah para Presidente. Oprah 2020. Trump comenta, desdenha, diz que ganharia. Os republicanos contorcem-se. Os democratas deleitam-se. Hollywood assina de cruz. Os media rejubilam. Os jornais lançam editoriais. O povo diverte-se. Oprah é a criança da profecia, o paliativo e o antídoto, o Anti-Trump.

Só que Oprah não é o oposto de Trump, mas o seu paralelo.

No rescaldo das eleições, alguém – inteligente, que merecia melhor do que o anonimato – comentou, na CNN, que Kennedy foi o candidato da TV, Obama o candidato das redes sociais, e Trump o candidato do reality show. A eleição de Trump seria o estado terminal da democracia, o triunfo do sensacionalismo sobre a razão, a degradação moral e eleitoral para que Tocqueville alertava já no século XIX.

É muito assim. Oprah não é o antídoto, mas mais um sintoma do advento de uma realidade virtual que vai, entre surreais aplausos, substituindo a vida. Não é a razão contra a sensação, é o sensacionalismo oposto, se se quiser. É a ponta de lança de uma luta – de audiências, porque em prestígio empatam – entre o The Oprah Show e o The Apprentice, o reconhecimento de que na América, governa quem melhor apresente e se apresente a ela.

Mau sinal, portanto. Trump vs. Oprah não é o auge da experiência política. É o título de um filme desastre, ou de um daqueles combates a 3D entre animais perigosos que se faz por graça na National Geographic – o Tubarão vs. Crocodilo, a Pantera vs. Pitbull, o Javali vs. Lince da Malcata, e por aí adiante.

Esta coisa de cada idiota ter um púlpito é capaz de nos fazer algum mal. Veja-se que políticos e eleitores acordaram, tacitamente, que o governo se deve orientar pelos critérios do entretenimento. E temos governantes convencidos de que, com uma consultoria de imagem, conseguem a quadratura do círculo, e encantar governando como um Obama, um Marcelo, ou um Papa Francisco.

Só que não. E quando dão por si envolvem-se, junto com os eleitores, num jogo que não dominam nem compreendem, que não é o deles nem o da coisa pública – e que no limite os atira, abraçadinhos, afectuosos, e em recíproca deseducação, para o primoroso charco garantido a toda a lagartixa que aspira a jacaré. Só então percebem, talvez, que só com um módico de reserva e distanciamento se preservam dos sentimentos voláteis e das exigências irracionais que fatalmente afligem quem decide sobre as vidas dos outros.

Na Madeira, o fenómeno vai dando os seus primeiros passos. Porque a oposição finalmente percebeu, vive-se um misto de encantamento e perplexidade com o valor eleitoral de um sorriso, de um boato, de uma gravata, de um desfile ou de uma Volta à Cidade, e com o desvalor de tudo o resto.

Por enquanto, o jogo vai-se jogando. Porque o eleitorado é que manda, o político vai saltando à corda com a linha entre popularidade e populismo. Um vício derivado de outro, mais antigo, o de julgar que – na vida e na política – ganhar é tudo.

Como os americanos vão porém percebendo, é possível ganhar mal. E é possível perder pela forma como se ganha. Afinal existe, fora do Governo e dos profissionais da gestão pública, quem melhor desempenhe a celebridade e quem mais granjeie popularidade. Basta constatar, por exemplo, que não há sorriso ou correria que resista se CR7 se resolver candidatar à Presidência do Governo Regional. Quem concorre nesse dia? Que podem os jornais contra aquele Instagram? Quem lhe tira - numa estimativa conservadora, antecipando cerca de 15% de mal resolvidos e fãs de Messi – a maioria de 85% com que augura cilindrar os outros desgraçados? Nem o Tubarão da National Geographic.

Brinquem, brinquem. CR7 2023.

Pedro Fontes

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