Cabral do Nascimento e o Turismo

Tratemos pois de tornar os lugares que habitamos mais “atraentes aos seus naturais”

10 Jan 2018 / 02:00 H.

Em 1924 – já lá vão quase 100 anos! –, Cabral do Nascimento publicou neste diário uma peça jornalística intitulada: “Modesta tentativa de um artigo sobre turismo “. O jovem poeta começava por dizer que, em vez de “turismo”, preferia utilizar o termo “excursionismo”, talvez por o considerar mais próximo do étimo latino. Tarde demais. Inventada no último terço do século XVIII pelos aristocratas britânicos em périplo europeu – o Grand Tour – a palavra turista era já, ao tempo, um anglicismo solidamente implantado na nossa língua. Stendhal importou-a para o francês em 1838, nas “Mémoires d’un touriste” e, meio século mais tarde, Ramalho Ortigão reproduzia-a alegremente nas suas crónicas com a grafia francesa: ‘touriste’.

Mas o que verdadeiramente preocupava Cabral do Nascimento não eram os estrangeirismos importados para a nossa língua, o que o preocupava era o “livro-chamariz” sobre a Madeira que a recém formada Associação de Turismo tencionava publicar. Escrevia ele no seu modesto artigo: – “Não será preferível tornar a terra, primeiro que tudo, atraente aos seus naturais e em segundo lugar chamar os peregrinos a compartilhar connosco dos seus possíveis encantos?” O autor propunha uma ordem de prioridades: primeiro zelar pelo bem estar da comunidade, pelo carácter das suas vilas e cidades, pela vitalidade das suas indústrias e da sua agricultura e, só depois, “chamar os peregrinos”.

A Madeira já não é o que era em 1924. Hoje, Cabral do Nascimento não se poderia mais queixar de não haver um Jardim Botânico, um Museu Etnográfico; nem queixar-se do lixo pelas ruas ou de uma população envenenada pela aguardente. A ordem de prioridades por ele proposta, todavia, continua actual. Se queremos convidar alguém há que, primeiro, arrumar a casa, arrumar a ilha onde vivemos a tropeçar em cadeiras de esplanadas entre ribeiras betonadas e tetrápodes. A nosso favor temos, é certo, a proverbial arte de bem receber. Levamos o turista à janela, apontamos para a montanha ou para o mar – se estiverem ao alcance da vista – e dizemos: – É tudo parque natural, veja, ali não desarrumamos nada, faça uma excursão a pé, ou de barco para ver as baleias.

E que teria a dizer Cabral do Nascimento do rosário de “inventos” festivos que “vendem o destino Madeira”? Das flores mortas que hoje desfilam nos cortejos da Festa da Flor e que no seu tempo cobriam os leitos das ribeiras ou vicejavam nos jardins das quintas? O turista aprecia, dizem. Mas quem é o turista? O que viaja para se internar num ‘resort all-inclusive’ donde não sai durante uma semana? O que regressa, ritualmente, todos os anos na mesma época e pelo mesmo número de dias? O praticante de BTT à procura de ciclo-emoções radicais? Duvido muito que algum destes encaixe na categoria. Nenhum deles viaja para conhecer o outro ou coisa diferente – que ainda é a melhor definição de turista que conheço. Tratemos, pois de tornar os lugares que habitamos mais “atraentes aos seus naturais”, como sugeria Cabral do Nascimento, criando em nós o sentido de pertença a um lugar, e nos turistas o desejo de conhecer esse lugar a que não pertencem.

Rui Campos Matos
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