Cá se fazem, cá se pagam

Foram ao baú da tralha jardinista buscar velhas glórias que estão aí em todo o seu esplendor

07 Fev 2018 / 02:00 H.

Ao eleitor menos atento, as diferenças entre as diversas ideologias podem parecer de somenos importância, coisa de políticos para ganhar eleições, “porque no fundo são todos iguais”. É esta a forma simplista e a menos “trabalhosa” de encarar a questão, pois, tal como no futebol, cada qual tem a sua opinião mesmo sem saber ao certo se a bola é redonda ou quadrada. Votar nuns ou noutros, contudo, não é indiferente porque a cada um deles corresponde uma certa forma de fazer as coisas, de defender interesses específicos que poderão ser absolutamente contrários aos do eleitor. Se você, por exemplo, é um patrão à antiga, que considera que deve pagar o menos possível aos trabalhadores, que o despedimento destes deve ser como vemos nos filmes americanos, do género “Está despedido/a, saia imediatamente”, terá todo interesse em escolher um partido que defenda a desregulação completa das leis do trabalho, o fim dos contratos coletivos, o fim dos vínculos laborais. Se for o seu caso, não necessita procurar muito, pois tanto o PSD, como o CDS, preenchem as suas necessidades.

Se não é esta a sua situação e votou num destes partidos, arrisca-se a sofrer as consequências da sua escolha, quando as políticas que estes aplicarem forem prejudiciais para si. Se considerarmos, por exemplo, que o aumento do IVA da restauração, realizado pelo ultraliberal Passos Coelho, lançou milhares de trabalhadores para o desemprego, se está nesta situação e se votou neste senhor, lamentará, por certo, tê-lo feito.

As diferenças ideológicas, mesmo que à primeira vista não pareçam, são de uma importância decisiva, pois condicionam as políticas e leis que governam e regulam toda a nossa vida de cidadãos. O PSD e Passos Coelho consideram que o papel do Estado deve ser mínimo e que a iniciativa privada deve prevalecer, mesmo nos sectores de primeira necessidade para os cidadãos. Em conformidade, irão tomar medidas para que isso aconteça, duma forma muito simples: Basta cortar nos orçamentos da saúde e da educação, para que estes percam qualidade e as pessoas tenham necessariamente de procurar resposta no sector privado. Não é por acaso que quanto pior estiver o SESARAM, mais hospitais e clinicas privados aparecerão, custando os serviços prestados muito mais do que fosse o próprio Estado a assegurar serviços diretamente aos cidadãos, mas, como os “nossos” amigos ganham, tudo fica bem.

Vejamos, por exemplo, o caso dos CTT que era uma empresa pública bem gerida, que, ano após ano, entregava lucros substanciais ao Estado. Passos Coelho para cumprir com a sua ideologia entendeu privatiza-la. A lógica dos privados é produzirem o maior lucro possível para os acionistas, inclusivamente entregando-lhes mais dinheiro do que o lucro gerado, o que significa que estão a ir buscar dinheiro à própria empresa, descapitalizando-a e retirando-lhe valor. Neste momento os CTT vão fechar o máximo número de balcões, pois para terem lucros muito maiores, em vez de terem um balcão com funcionários próprios razoavelmente remunerados, passaram esse trabalho para a Junta de Freguesia ou para a menina do supermercado, que possivelmente ganhará o ordenado mínimo e atenderá os clientes do correio entre uma devolução de garrafas e a venda duma botija de gás. Eu, por exemplo, tenho uma encomenda em trânsito que foi entregue em Osaka (Japão) no dia 23 de janeiro, chegou a Portugal a 25 (dois dias depois)e ainda não a recebi. Para já, passaram 11 dias para a encomenda vir de Lisboa ao Funchal. As autoridades argumentam que a concessão de serviço público aos CTT acaba dentro de dois anos, porém sendo os CTT os donos dos balcões, quem poderá competir com eles mesmo que abram um concurso no futuro, para nova concessão do serviço? Esta situação é em tudo semelhante à do Porto do Caniçal onde, mesmo que abram um concurso para a exploração do porto de carga, ninguém poderá competir com os Sousas que são donos dos equipamentos.

Os madeirenses, fartos de AJJ, deram a maioria aos “renovadinhos” do PSD para governar, na esperança de que estes iriam mudar a forma e o estilo de governar. No início, qual “Primavera Marcelista”, assistimos a um estilo mais civilizado, menos autista, tendo inclusivamente chegado a ser aprovadas propostas da oposição. Com a progressiva falência do modelo, contudo, e principalmente porque substituíram técnicos competentes com décadas de experiência por boys and girls sem nenhuma experiência de vida ou governativa, inevitavelmente, fizeram asneira.

Conscientes da notória falência do modelo, e não tendo outra utensilagem, foram ao baú da tralha jardinista buscar velhas glórias que estão aí em todo o seu esplendor, com os velhos métodos, processos, despesismo e linguagem. Vejam-se as recentes intervenções na ALR do Vice-presidente e do deputado JCRodrigues, no velho estilo jardinista mais puro e duro, como já há algum tempo não se assistia.

Sem ouvir nada nem ninguém, tal como o seu mentor AJJ, o Vice quer contrair um novo empréstimo de 500 milhões no BEI destinado a aumentar a Pontinha, lançar o cabo submarino e fazer o novo hospital. Não precisa do dinheiro da Europa para nada, não precisa que o Estado nos pague 50% do hospital. Pede-se o dinheiro e pronto. Os mesmos que estão a pagar o endividamento e a dívida oculta, pagarão mais estes 500 milhões. Qual o problema? Para já, os J.Ramos, os AFA, etc., agradecem.

Quando chegar a hora, se votar nestas criaturas, esteja consciente de que, “cá se fazem, cá se pagam”.

Helder Melim

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