Borlas e burlões

15 Set 2018 / 02:00 H.

Quando o conceito de ‘política’ deixa de ser entendido como a procura e implementação de soluções para uma melhor organização e gestão da sociedade, e passa a significar a luta pela conquista e manutenção do poder, está dado o primeiro passo para que, nesse processo, o interesse público seja desviado, e desvirtuado, em favor de outros. O fito no poder, em conquistá-lo ou mantê-lo, legítimo quando se mantém dentro de limites que não transbordem e inundem, e afoguem, o bem-comum, é um dos motivos para a má gestão dos recursos públicos e, muitas vezes, para o aparecimento da pequena e grande corrupção. Neste caminho destrutivo das sociedades, o ónus não é carregado apenas por quem, ávido e cobiçoso, procura, por todos os meios, conquistar ou manter o poder. Não! O comum cidadão (e também eleitor), quando aceita e apoia essa atitude, e, mais, quando exige para si favores e jeitinhos (muitas vezes em troca do seu apoio político e eleitoral), em desfavor do interesse comum, está a destruir a estrutura e a organização da sociedade.

À medida que se aproximam os atos eleitorais, esta atitude da nossa política sobrepõe-se descaradamente ao interesse comum de gerir bem a sociedade e os recursos públicos. Quem não se lembra do chorrilho de inaugurações no tempo de Alberto João Jardim, tornadas em festas e comícios para todos, acompanhadas de vinho, laranjada e espetada? Tudo dinheiro público colocado ao serviço da manutenção do poder. Quem não se lembra das muitas obras sem utilidade, ou a extravasar em muito a nossa escala, que alimentaram uma dívida a pagar hoje, e no futuro, com impostos altos e o adiar de soluções urgentes? Tudo dinheiro público colocado ao serviço da manutenção do poder. Quem não se lembra das cunhas na função pública, deixando para trás outros mais competentes, e das mãos que se lavavam mutuamente nos concursos para as obras públicas? Tudo dinheiro público colocado ao serviço da manutenção do poder. Quem não se lembra da distribuição de cabazes de compras, baldes de tintas, telhas e sacos de cimento em véspera de eleições? Tudo dinheiro público colocado ao serviço da manutenção do poder.

Mas este passado persegue-nos impiedosamente. Hoje este passado está mais refinado, assim exige uma sociedade que já não se deixa ir na algazarra da espetada e do vinho seco. Hoje, continuamos a ter os jeitinhos e o engodo das borlas sem critério social nem interesse público, mas, agora, faz-se pela calada ou com tudo embrulhado em papel acetinado. O que dizer da entrega de cheques em sessões secretas com algum povo convocado por telefone, sem critério válido nem objetivo lógico para o interesse da comunidade? O que dizer das Juntas de Freguesia, feitas em agências de viagem, a passear os seus fregueses (e presidentes de Junta) pelo mundo? O que dizer dos livros para todos, até para quem os pode muito bem comprar, sabendo-se que não são os livros que fazem a educação? O que dizer das bolsas de estudo para todos, até para quem tem rendimentos que ofendem a vida sofrida de muitas famílias? O que dizer da tarifa social, sem critério social, na água consumida por munícipes que têm a profissão de bombeiro?

A ausência de critério social nos apoios públicos, seja na água consumida na habitação de pessoas que exercem a profissão de bombeiro, seja nos cheques distribuídos a pessoas envolvidas em atividades do setor primário, seja nos livros a quem tem filhos na escola, não corresponde a uma boa gestão dos recursos públicos. Porquê?! Primeiro, porque eles são demasiado escassos e devem ser poupados para as necessidades mais prementes da sociedade e de quem está mais carenciado. O dinheiro público desperdiçado com quem tem rendimentos mais do que suficientes para fazer face às suas necessidades poderia ser aproveitado para melhor suprir as carências das famílias em momentos de maior dificuldade, e para investir numa melhor gestão e organização da sociedade. Segundo, porque os apoios públicos têm repercussões profundas no funcionamento e organização da sociedade, e dos seus membros. Por exemplo, os cheques de 100 euros distribuídos aos agricultores para, como foi dito ao telefone, pagar os “remédios”, podem incentivar o uso de herbicidas e pesticidas; a água mais barata para famílias em que um dos seus membros exerce a profissão de bombeiro pode resultar no aumento do desperdício deste recurso escasso; as bolsas para todos os universitários residentes no Funchal podem acentuar ainda mais o êxodo dos jovens dos outros concelhos da Região.

Se queremos melhorar a educação apostemos no envolvimento e preparação dos educadores, se queremos valorizar a profissão de bombeiro melhoremos as suas condições de trabalho e atribuamos remunerações mais justas, se queremos incentivar o setor primário criemos as condições para que os produtos tenham melhor escoamento e maior valor acrescentado. A distribuição de borlas, sem critério social e de interesse público, pode ser uma boa estratégia para conquistar ou manter o poder, mas constitui uma burla sobre os interesses maiores da sociedade.

Hélder Spínola
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