Baloiços, gangorras e geringonças

17 Abr 2018 / 02:00 H.

Um dia destes discutia-se qual a maior indústria no Norte. Para uns é o turismo, para outros a construção civil, outros ainda defendem a agricultura, com a vinha tinta negra à cabeça... Enfim, cada um defendia a sua dama.

Nessa conversa, o João do Cabeço, que aposta no turismo como o sector mais importante, defendia uma forma de maior ligação dos turistas à população e de manter as pessoas reformadas ativas: para além de fazerem alguma agricultura, podiam também servir de uma espécie de guias turistas.

Foi gargalhada geral, nem deixaram o homem acabar a conversa.

- Estão a rir, mas olha, há dias vi a notícia que no continente já fazem isso. Organizam visitas pelas aldeias e essas pessoas vão contando as histórias da localidade.

Nova gargalhada. Diz o Manuel do ferreiro:

- Gostava de ver os da Lombada a explicar a história da gangorra a um turista alemão! Devia ser bonito...

- Era fácil - diz a Maria. - Diziam que era o baloiço deles quando eram pequenos.

- Sim! - interrompe o Manuel - Na língua dos da 1ª Lombada, eles iam entender tudo...

- Isso não interessa, com gestos chega-se lá! Não te lembras do programa da televisão? O gesto é tudo!

E o Caladinho, sai-se com a sua:

- Deixem-se de baloiços e gangorras, agora o que esta a dar é a geringonça. Também começou no continente, parece que já anda na Alemanha e dizem que já começaram numa lá para a cidade.

- Pois é - diz o João do Cabeço. - Vocês estão todos no gozo, mas ele tem razão. O princípio é o mesmo. É uma peça de madeira comprida, ou outro material qualquer, apoiada num ponto e um de cada lado a andar para baixo e para cima, tentando manter-se equilibrado...

Entra na conversa o Manuel da Terceira Lombada:

- Isso a gente também fazia quando era canalha, com um rolo de pinheiro no meio de uma vara grossa e comprida e um de cada lado. Mas, pelo que dizem, a geringonça é mais parecida com a nossa gangorra.

- Então? - pergunta a Maria, que nunca ouviu falar em semelhante coisa.

- A gangorra é mais sofisticada, é em pau de loureiro curvo. Apoia noutro que está na vertical e enfiado na terra. Nas pontas tem uma parte plana para assentar o rabo e umas pegas para se segurar.

- Ita!- interrompe o Caladinho. - É melhor fazeres um desenho, que a Maria não está perceber nada...

- Era assim. Punha-se um de cada lado e, além de andar para baixo e para cima, ainda anda andava de roda. É mesmo uma geringonça. Só vendo para perceber! Só se aguentava lá em cima enquanto ninguém mandasse um solavanco mais para um lado. Às vezes caiam todos...

- Todos? Já estás a inventar! Então não eram só dois? - pergunta a Maria.

- Não. Às vezes era dois de cada lado, ou dois num lado e um noutro, para ficar equilibrado. Quando havia um manhoso, aquilo caía tudo e era canelas e braços esfolados.

- Tens razão, isso é mesmo um geringonça! - diz o Manuel - Um manda um balanço para um lado, outro para cima, outro anda de roda, enquanto o do meio vai abrindo os braços para segurá-los em cima do pau, senão...

E remata o Caladinho:

- Espero que quando eles caírem, caiam com jeito para não se esfolarem todos e dar trabalho aos outros.

Joel Freitas

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