Autonomia em risco

A autonomia não é o espaço para os novos governadores do território que a geringonça engenha

13 Jun 2018 / 02:00 H.

A autonomia constitui a maior conquista e, simultaneamente, o maior desafio da Região.

O seu processo de afirmação, que foi arrancado a ferros e ao longo de árduos anos, deixa bem evidente que o país vive mal com o princípio e lida pior com sua existência.

Pela autonomia extremaram-se diálogos, assumiram-se ruturas e definiram-se posições.

Ainda bem! Nada de valor se consegue na vida sem esforço.

Foram gerações de empenho, causas de luta e oposições permanentes. Tudo num espírito de unidade nacional, pese embora nunca entendido no fundamental, pela República, mas sempre transparente na motivação regional.

A Região é autónoma mas não o suficiente para escolher o seu caminho e decidir o seu futuro.

A autonomia como se conhece é, ainda, mais perfeita para o centralismo que caracteriza o poder nacional do que capaz de se afirmar na sua essência, deixando, na prática, a Região refém de todo e qualquer interesse do poder central, seja ele, ou não, político-partidário.

A história demonstrou que os avanços conseguidos resultaram de compromissos consequentes de posições firmes e distantes de qualquer simpatia ou mesmo de amizade.

A autonomia é resultado de uma luta constante, muitas vezes apelidada de confronto ou de contencioso entre protagonistas que nunca privilegiaram a cor política como meio para a sua evolução.

Na história desta afirmação, a Madeira sempre procurou limitar a ação nacional ao devido e adequado, dentro do respetivo enquadramento, não permitindo ingerências de qualquer espécie e afirmando, sempre, repúdio ao desrespeito do país face ao não cumprimento das disposições regulamentadas, mesmo de natureza constitucional.

Nunca a Madeira aceitou ser o país a escolher os atores da política regional.

Essa foi sempre um impossibilidade e uma garantia da sobrevivência e da afirmação do processo que melhor respeita aquilo que nos carateriza.

Hoje, vive-se uma verdadeira ameaça à autonomia regional, assistindo-se à intromissão nacional na escolha do líder da oposição local, elegendo-o como candidato e suportando-o com todos os meios do país.

A agravar esta intromissão, entenda-se fragilidade regional, verifica-se que, mesmo depois de uma reflexão tida como estratégica, não existe uma única ideia nova, uma orientação diferente ou uma visão específica de interesse para a Região Autónoma da Madeira. Não se trata da escolha de um novo rumo para esta terra mas sim de uma ambição que, sem tamanho, se foca no assalto ao poder a qualquer custo.

Existe uma suposta cumplicidade, vista como amizade, entre quem escolhe e o escolhido, que representa mais uma ameaça concreta à autonomia regional. Imagine-se o que seria o poder central a mandar, por interposta escolha, no território regional, sabendo-se que são muitos os dossiers por aquele, bloqueados, numa campanha insensível às necessidades locais. Essa suposta cumplicidade não permite uma atitude firme, séria e determinada na defesa da Madeira e do Porto Santo, pelo contrário, torna-nos reféns de uma orquestra que toca para o ouvido mas não toca nos nossos corações.

Assistimos a uma negação do nosso espaço, à submissão inqualificável dos poderes regionais, conquistados com muito esforço, e a um vazio completo de intenções claras e objetivas de governação.

Este conjunto coloca o futuro da Região à mercê dos centralistas, daqueles que têm vindo a mostrar total indiferença quando lidam com os problemas dos madeirenses e portossantenses, provando que o que está em curso é um movimento de conquista da Região sem conteúdo, sem sensibilidade e sem conhecimento que possa valer qualquer confiança ou credibilidade.

O entretenimento que está em curso tem conseguido, também, o objetivo de desviar a atenção do importante em matéria da evolução da nossa autonomia. O circo que foi montando concentra a atenção no imediato, nas questões pequenas e naquilo que de pior tem a política, fazendo esquecer que existe uma urgência premente para promover o crescimento da nossa autonomia. Não é uma escolha ingénua. Representa a forma de estar daqueles que não entendem os madeirenses e os portossantenses para além do número de votos que representam.

Os madeirenses e os portossantenses não desejam, não querem, nem merecem voltar atrás num regresso a um passado que não deixa saudades nem traz boas memórias.

A autonomia não é o espaço para os novos governadores do território que a geringonça engenha e que os submissos locais alimentam.

Eduardo Jesus

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