Autárquica: altura para renovar compromissos

zzzz

09 Set 2017 / 02:00 H.

Aí estão as eleições autárquicas. Paira no ar o bailado das palavras e das imagens, exibem-se cartazes gigantes com fotos de personagens de olhar generoso e frases arrojadas. Tudo dentro dos valores normais para a época. A maturidade democrática inclui na lista, o desconto dos exageros e das gabarolices com que se adjetivam os discursos e se enaltecem os concorrentes.

Para se governar a cidade é preciso ter uma conceção de cidade. Mesmo que se trate duma pequena aldeia que nunca chegará a metrópole. Por isso me atrevo a aconselhar a candidatos e votantes um documento notável – Carta Pastoral do Patriarca de Lisboa, intitulada “A Igreja na Cidade”. Envolve-se, este documento, numa perspetiva pastoral e não cívica ou política no sentido convencional. Mas não é possível gerir a cidade hoje sem ter em conta a reflexão sobre a urbe que cada um constrói. Tendo em conta a sua história, os seus contextos geográficos, culturais, os seus tecidos, as mudanças que se operaram. Importa lembrar que as cidades têm alma, evolução nas populações, imigração, mobilidade, alterações demográficas, ambiente, transportes, riscos, silêncios, esquecimentos, medos, fugas. E pobres, excluídos, marginais, anónimos em excesso. Tudo isto somos nós. A tudo isto se refere um pouco o Ex. Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, no documento que referi.

Não resisto, a deixar aqui uma citação, ainda que intima, alusiva à cidade que se move: “trata-se de uma característica das grandes cidades, em evolução crescente desde há dois seculos, mas que deu um salto quantitativo com a civilização do automóvel e o alargamento da rede de transportes públicos. Tudo isto provocou alterações sucessivas na conceção das cidades e na vida das populações. A cidade passou a organizar-se a partir das exigências dos transportes e não das pessoas. Os chamados “peões” perderam espaço nas grandes cidades que privilegiaram a deslocação, de casa para o trabalho, da periferia para o centro e vice-versa, na busca dos múltiplos centros de interesse das pessoas e das famílias que parecem passageiros em trânsito”.

A mobilidade introduz alterações profundas na compreensão da vida. Antes de mais na definição do “tempo humano”, isto é, a relação da vida com a ocupação do tempo, ou o tempo concebido como espaço para a vida. “Passageiros em trânsito” não têm tempo para a leitura, para o convívio, para a oração e vida religiosa, para o lazer que passa a ser, apenas, e quando o é, mais um número de um programa sobrecarregado. O Cristianismo introduz na vida uma dimensão contemplativa, o que supõe um tempo humano mais pacificador. Há dimensões essenciais na felicidade humana que, para não as perder, é preciso lutar contra o bulício da cidade. A Igreja não pode deixar-se arrastar por essa voragem do “tempo sem tempo” e oferecer às pessoas o espaço – tempo de tranquilidade e de paz.

Já João Paulo II constituiu e declarou S. Tomás Moro como o patrono dos governantes e políticos.

A chamada de atenção para este homem, canonizado quatrocentos anos apos a sua morte, reconduz-nos à observação da vida política como ato de nobreza, com todos os valores e energias que merece uma causa pública, um serviço à comunidade, a defesa de princípios, a integridade associada à liberdade interior.

Não faz qualquer sentido colocar na primeira linha dos atributos políticos a ausência de escrúpulos, habilidade para dizer e desdizer, ou mesmo a opacidade em ideias e princípios, por troca com eficácia imediatista, com fins à vista sem reserva de meios. Parece, por vezes, que ser corrupto é o menos. O importante é ser hábil e ágil.

Nesta operação complexa é tão importante o empenhamento ético dos políticos como o das populações que elegem. Os políticos saem do povo e deles são reflexo. Por isso, ambos constroem a cidade a partir da dignidade inalienável da consciência – “o centro mais secreto e o santuário do homem” como diz o Concilio.

É exatamente por isso que aqui é chamado S. Tomás Moro, como padroeiro dos políticos. E neste momento em que se definem e discutem perfis de elegíveis para diversas áreas do poder.

Se a vida dos políticos e de mais vedetas é utilizada como catarse dos dramas e frustrações do povo, aos que têm do poder a conceção do serviço, urge uma referência permanente aos valores fundamentais de cada pessoa e de todo um povo. Governantes e governados, prós e contras, precisamos de elevar a fasquia das nossas pretensões na área política – do serviço à cidade – para readquirirmos a dignidade e autenticidade do nosso empenhamento social. A política é muito mais que um jogo. E a defesa da sua dignidade pertence a todos os cidadãos.

No modelo e sistema político em que vivemos, a política e as respetivas eleições autárquicas deveriam constituir o exemplo mais sólido de democracia participativa. É no poder autárquico que reside a maior atratividade à participação dos cidadãos na política e no exercício de direitos e obrigações de cidadania. É no poder e intervenção local que a política de proximidade se faz sentir e se constrói parte muito significativa do quotidiano daqueles que vivem, trabalham ou visitam determinada região.

Concluindo, há um longo caminho a percorrer para que a democracia funcione de forma genuína, séria e contemporânea.

É tempo de renovar compromissos porque só assim se faz a democracia que, conforme se diz, é a maneira menos imperfeita de a comunidade se organizar”.

José A. Roque Martins
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