A tolerância!

Em termos de tolerância, só Zero ou 100%! Como é apanágio da nossa maneira de ser!

20 Mar 2017 / 02:00 H.

Visitei recentemente um país que se considera e se identifica, por demonstrar uma tolerância, social, política, religiosa e por ter aceite uma liberalização, no seu território, para o consumo de drogas “ditas” leves. Estou a falar da Holanda, onde é possível observar diáriamente essa tolerância, onde realmente se multiplicam e reconhecem igualdades gerais, sem veleidades, mesmo de circunstância. País organizado, em todos os sentidos, com uma população mista, com muitos descendentes das suas antigas colónias mundiais, com imigração variada, encontrando-se aí uma integração pacífica e funcionante, no meio desta miscelânia de pessoas com diferentes origens, géneros e feitios. Com estes visíveis resultados de uma tolerância instalada - que sendo institucional - tende a permitir, um estadio de auto-regulação, mais particular nos médios e pequenos problemas. Apesar de ser fácil e livre o consumo de “cannábis” e substâncias similares, não se vêem, distúrbios, desacatos, que se expliquem ou sejam desencadeados pelo seu natural consumo. Concerteza que deverão existir cenas mais extremas, nos consumos desregrados, mas aparentememte tudo se desenvolve com uma naturalidade estabilizada. Os agentes da autoridade mal se vêem, ou então circulam á paisana, disfarçadamente ... mas não fazem certamente capturas junto dos consumidores, nem relatórios ácerca dos mesmos, ou dos seus consumos. De qualquer modo, percebe-se que essa tolerância, estará perto dos limites e talvez necessite de uma revisão “estatutária”. Tomando como exemplo uma cidade holandesa com muitos visitantes e agitação turística, achamos que os meios de transporte públicos funcionam perfeitamente, e que, associados ao transporte em bicicletes - utilizado pela maioria da população residente - servem todas as pessoas a 100%. Mesmo com o perigo eminente de um atropelamento por um veículo de duas rodas, estes servem ás mil maravilhas, para todas as deslocações. Uma biciclete com a mãe e dois filhos de colo, ou um pai com duas crianças, sem utilização de capacetes ... é muito comum observar, nas ruas empedradas, por entre os imensos canais e trajectos da cidade de Amesterdão. Nem para as motorizadas se exige o uso de capacete. Tudo isto deve ter a ver com a tal tolerância, organizada e assumida por todos. E como é evidente, qualquer visitante, seja a que título for, deve ser colaborante e também terá de ser tolerante - honrando a máxima - “ Em Roma, sê romano” !

Alí tudo é negócio e em todo o lugar se paga para entrar: museus, como é evidente, igrejas, capelas, casas classificadas, sanitários, fábricas de lapidação de diamantes e até fábricas de produção de cerveja. Fiquei no entanto com a sensação que o povo holandês - que se reconhece com facilidade no meio citadino - não parece tão simpático, como exterioriza durante as férias, ou seja, fora do seu habitat. No contexto geral, é um país a visitar e a reconhecer e fixar sobremaneira, os seus bons exemplos de cidadania e de tolerância, que transmite aos demais .

Nada melhor do que utilizar outro exemplo, para ser comparada a tolerância em ambiente citadino diversificado. E serve ás mil maravilhas o nosso Funchal, que é também uma cidade turística, muito procurada - com muitas visitas de apenas um dia ou sómente horas - onde se permite exibir tolerância, não institucionalizada, mais própriamente, tolerância “ad hoc”, ou seja, permite-se fazer muita coisa hoje, mas não amanhã. Passo a explicar: a tolerância deve ser encarada como um “instrumento” á nossa disposição, que faz “autorizar” uma prática específica, dentro de barreiras menos restritas, mas sempre com senso, educação e respeito pelos demais cidadãos. Tolerar aqueles 80 km das vias rápidas, para os 90 ou 95 km, não me choca nada! É absolutamente tolerável, quando o veículo, está técnicamente dentro da lei! Não é tolerável as velocidades astronómicas das motorizadas - até dentro da própria cidade - com escapes sem controlo efectivo do ruído emitido, ... aliás, também sem qualquer inspecção oficial ... com uma permanente “benzedura” das autoridades policiais. Como não é tolerável, o estacionamento abusivo, diário, permanente e principalmente em cima dos passeios - onde têm de passar os peões - nas paragens dos autocarros públicos, nas zonas de carga e descarga, nas linhas amarelas e em todo o lugar, onde o “chico-portuga” resolva inventar um estacionamento. Tudo isto além de intolerável é também desonesto e injusto! E demonstra alguma da nossa educação defeituosa! Em termos de tolerância, só temos dois números: Zero ou 100%! Como é apanágio da nossa maneira de ser! Até no sistema fiscal, se andou a “caçar” ao extremo os contribuintes ... e depois “saem” várias centenas de milhões, para “paraísos” fiscais sem qualquer identificação ou controlo!

Parece-me importante frisar que a tolerância deve existir, num território turístico, como é o nosso, mas com alguma sensatez. Fala-se muito da qualidade do nosso destino turístico, mas, essa qualidade, somos nós - exclusivamente - quem a deve efectivamente construir. Sob pena de sermos fácilmente ultrapassados! Não é tolerável, o excesso de estabelecimentos do tipo “souvenir” ou “recuerdos” regionais ... a maioria deles nem são da Região ... para não falar na qualidade e no gosto - que tudo vendem ... desde a nossa poncha maravilhosa ... mas engarrafada ?? ... até imagens de Nossa Senhora de Fátima com 50 cm de altura. Gostos não se discutem! Então, também não se pode discutir a qualidade! Também se anuncia nos matutinos regionais “consultas” ... que só podem tratar-se de consultas médicas, por pessoa que não estudou para tal. Acham tolerável? Vai o meu comentário ... para ser engenheiro convêm tirar o respectivo curso! Senão a ponte ou o viaduto podem cair!

Ficará muito para dizer e comentar, mas ... a tolerância pode ajudar e trazer benefícios em muitas circunstâncias ... se na realidade soubermos utilizá-la.

J. Manuel Morna Ramos