A roda da vida

02 Out 2017 / 02:00 H.

Quando tinha 11 anitos, num belo dia de verão, daqueles em que só nos apetece estar ao pé do mar, fui até ao complexo balnear da Barreirinha. Ia tirar um curso de aperfeiçoamento de prancha à vela e tinha a indicação de procurar um tal de José Gouveia. Como não o conhecia, perguntei à primeira pessoa que encontrei no local. E qual não foi o meu espanto, quando respondeu: “Sim, sei. Sou eu!” E aí começou uma relação que foi muito para além da binómio atleta / treinador, que se estendeu por 34 anos e que culminou, entre tantas outras coisas, com sete presenças nos Jogos Olímpicos.

Foi uma história muito bonita. Pelo menos para mim. Provavelmente não tão interessante para ele, uma vez que, e desculpar-me-á o leitor pelo uso de semelhante palavra, teve de me aturar por mais de três décadas.

Essas memórias são únicas e jamais se repetirão. É a beleza da vida. Outras virão, quiçá mais incríveis. Mas agora, que me vejo num papel que não imaginava, ajudando outros tantos jovens a construírem a sua própria narrativa, obrigo-me de certa forma a rever tudo o que se passou. Os erros que fizemos, os milagres que aconteceram, a inacreditável sorte que tivemos, os milhares de pontas que magicamente se juntaram, para que tantas capítulos fossem surgindo E quanto mais penso nisso, mais tenho a certeza de que o segredo, se é que se poderia chamar isso de segredo, foi uma enorme paixão, um amor mesmo, por um instrumento que me permitiu conquistar o horizonte e para lá dele. Desse amor, nasceu um projecto de vida, diria mesmo uma filosofia de vida, baseada nesse propósito de descoberta do “até onde poderia ir eu numa prancha à vela?”

Quando observo esta nova geração de jovens velejadores, quando constato que o substrato que alimenta todas as nossas vidas está presente, ou, dito por outras palavras, quando me deparo com vidas que ganham significado a cada dia que passa, só posso concluir que a roda da vida continua a girar e que novas, frescas e maravilhosas histórias estão a se desvendar à nossa frente. E assim, não é só a vida deles que ganha significado jornada a jornada...

João Rodrigues
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