A nossa família

Serão a famílias com os pais juntos mais felizes do que as de pais separados ou serão as biológicas mais importantes do que as famílias de coração?

14 Mai 2017 / 19:16 H.

Que precisamos sentir para que possamos guardar dentro de nós a “nossa família” e ter um sentimento de pertença a um lugar e a uma família?

A estrutura familiar e o seu próprio conceito tem vindo a sofrer grandes mudanças. Hoje deparamo-nos muitas vezes com outros formatos de famílias, famílias monoparentais, reconstruídas, com crianças adotadas, com duas mães ou dois pais. Será que a estrutura é que dita a qualidade, solidez ou estabilidade ou aquilo que nela é vivido e transmitido?

Serão a famílias com os pais juntos mais felizes do que as de pais separados ou serão as biológicas mais importantes do que as famílias de coração? Farão parte da família de cada um de nós outros elementos que não são de sangue, mas que assumem igual importância?

Tendemos a estratificar em graus de importância e as opiniões divergem consoante a forma como perspetivamos o que é uma família.

Podemos consultar muitos estudos científicos para explorar estas questões e enquanto psicóloga poderia dissertar e fazer-vos uma resenha sobre o tema, mas quem melhor que as crianças para nos dizerem, de uma forma muito genuína e realista o que é o mais importante e o que lhes transmite um sentimento de pertença a uma família e, afinal, quem é a família para eles?

E eles não deixam dúvidas. Muito recentemente foi apresentado em Portugal um inquérito sobre esta realidade, a crianças dos 6 aos 12 anos e a maioria das mesmas refere que família é quem cuida, acarinha e se responsabiliza por eles. As crianças dão mais ênfase a estes critérios do que à suposta estrutura familiar.

Estes dados tão pertinentes foram colocados sob a forma de livro intitulado “Álbum de família” que foi lançado este mês por duas psicólogas autoras do trabalho (Susana Amorim e Rute Agulhas). Destacam que, de facto, as afirmações das crianças atestam que “São os afetos que definem o que é família” e que “as crianças sentem que o amor é a cola que une os elementos da família”.

As questões de sangue e filiação são mais valorizadas pelos adultos do que pelas crianças, justamente porque as crianças, quanto mais pequenas são, mais tendem a regular-se pelo que sentem (afetos). Na ausência de um pai ou mãe, a existência de alguém significativo afetivamente para a criança desdramatiza esta realidade. Essa ausência, muitas vezes é vivida com mais dificuldade, quando nós adultos enfatizarmos as questões de sangue como prioritárias para o seu bem estar emocional.

Nem sempre numa família, e para a criança, o pai ou a mãe são os mais significativos, nem sempre para um adulto, algum dos pais ou irmãos são mais importantes que outro familiar ou um amigo.

Quando a “nossa família”, por vários motivos decresce ou está ausente, outros assumem uma relevância equiparada e compensam essas ausências, transmitindo-nos esse sentimento de sermos gostados, acarinhados e protegidos, de que tanto precisamos como seres humanos para superarmos fases mais difíceis de vida.

Gostaria de deixar-vos esta perspetiva menos ortodoxa de família, mas mais real e que nos permite passar pelas vicissitudes da vida sem tanto sofrimento e sentimento de “orfandade”, solidão ou até por vezes de infortúnio.

Por mais que a lei da vida nos mostre que ninguém habita esta vida para sempre e a ausência física de quem amamos nos angustie, há uma certeza que podemos ter, que apenas fica só quem escolhe ou quem não percebe o seguinte: a “nossa família” são os nossos investimentos afetivos e todos aqueles a quem nos ligamos; quanto mais nos despirmos de estereótipos e acrescentarmos à família de sangue todos os outros que também são importantes para nós, menos sós estaremos e com mais firmeza atravessemos as intempéries que surgirem.

Um amigo, um vizinho, aquele que se encontra na mesma condição que nós, pode ser ou se tornar, em determinado momento da nossa vida, um elemento muito significativo na “nossa família” e, se assim for, não tenhamos qualquer preconceito em considerá-lo tão ou mais importante que os outros de sangue e em estarmos recetivos a interagir com eles de modo a termos apoio e sentirmo-nos apoiados, seja emocionalmente, seja nos diferentes acontecimentos da nossa vida.

* Psicóloga Clínica na PsiprofClinic

www.psiprof.pt

Eduarda Freitas
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