A narrativa do Diabo

Foi por isso, sem surpresa, que verifiquei a pesadíssima derrota do PSD nas autárquicas

14 Out 2017 / 02:00 H.

DDurante a manhã de Domingo, dia de eleições autárquicas e, antes de almoçar, tive a oportunidade de espreitar as últimas notícias de Portugal e do estrangeiro. Verifiquei nessas leituras que o Papa Francisco tinha estado na diocese de Cesena, onde começou por pedir uma “boa política”, sem o “caruncho da corrupção”. Francisco voltou também a recordar que a Doutrina Social da Igreja considera a política como “uma forma nobre de caridade” e convidou os “jovens e menos jovens” a interessarem-se mais e participarem na acção política que seja boa, independente e idónea. “A política parece nestes anos, ter-se retirado, por vezes, diante da agressividade e da penetração de outras formas de poder, como a financeira e a mediática”, lamentou o papa, considerando a política como “uma forma de caridade”.

Depois da leitura destes textos fui votar e segui para a missa, indiferente a sondagens, mas expectante.

Foi por isso, sem surpresa que verifiquei, a pesadíssima derrota do PSD nestas autárquicas que ultrapassou tudo o que era previsível – ou até imaginável. O PSD até conseguiu ainda piorar os já de si desastrosos resultados de 2013, em todos os aspectos, incluindo nas autarquias maiores e mais simbólicas. Atrevo-me a dizer que para desgosto da direita, são mesmo um aviso importante.

Para o PS o resultado foi inequivocamente bom: o melhor resultado autárquico da sua história. Embora diga, na minha opinião, está longe de indiciar uma maioria absoluta nas próximas legislativas.

O PS, hoje, controla o governo e, com amplas vantagens, muitos municípios urbanos enquanto o PSD desapareceu das grandes cidades. Mas os quase dois milhões de votos que os socialistas obtiveram nestas eleições são insuficientes para um grande êxito em 2019. Para tal, têm de encontrar eleitorado adicional tanto à esquerda como ao centro.

A posição de cegueira e agressividade de Pedro Passos Coelho perante o Governo só podia prejudicar o PSD, mesmo eleitoralmente. Os bons autarcas do partido bem desejaram que Pedro Passos Coelho não lhes aparecesse na campanha, mas apareceu, andou pelo País quase todo, sempre com o mesmo discurso negando o obvio e dando à eleição clara dimensão e significação nacionais que os resultados evidenciaram, mas no sentido oposto ao por si pretendido. E, perante tudo isto, ainda precisou de reflectir sobre o que fazer... Profecias do diabo ou de quem o inventou.

Se o resultado autárquico de 2013 tinha sido o pior da história do PSD, conseguiu ainda pior. Errou na estratégia, errou nos candidatos dos centros urbanos, errou na mensagem, errou na campanha.

O PSD, antigo Partido Popular Democrático, que ajudei a fundar e do qual cheguei a ser dirigente nacional é, neste momento, um partido impopular. Tem um problema estrutural como tenho vindo a referir e com o qual até Alberto João Jardim está de acordo.

Não me parece pois estar enganado – que qualquer mudança no PSD, neste momento, possa impedir uma profunda derrota em 2019. Depende dos militantes perceberem que resultado pretendem e quais os objectivos e estratégias que definam como prioritárias. “ É um partido que tem de avançar para uma profunda reflecção, que tem hoje problemas de identidade, que tem de definir qual é o seu eleitorado, que tem de repensar a sua estratégia politica”, segundo Ângelo Correia que junta a estas 3 indefinições “demasiados erros e inconsistências” de um partido que tem sido ausente” – “não é mau nem bom” é ausente. E essa ausência transmite-se ao eleitorado”.

Mas o problema do PSD não reside nos seus quadros (apesar de desprezados nos tempos recentes). O embaraço está na sua obsoleta organização, no seu estilo de liderança e, principalmente, na ausência de um programa político decente e inspirador. O estorvo está no dogmatismo financista e neoliberal, ultrapassado pela realidade, mas obsessivamente imposto.

O PSD tem de olhar de novo, com uma visão reformista para os problemas sociais da sociedade portuguesa, para a enorme pobreza que subsiste, para a dignidade do trabalho, para o controle dos grupos económicos, para uma politica de emigração equilibrada e justa, para uma constante preocupação com a existência de um elevador social que precisa do Estado e de impostos progressivos, que garanta direitos mínimos aos portugueses no plano da educação, habitação e saúde. Nalguns casos, a melhor maneira de assegurar este caminho é com menos Estado, noutros com mais. Isto, vos garanto, pode ser feito com muito mais eficácia e independência por um PSD reformista do que por um PS preso aos grandes interesses, diz o José Pacheco Pereira e eu concordo.

O PSD ao invés de investir num discurso claro sobre a sua alternativa para o País, desesperado, optou pela imitação da agressividade típica do populismo, com evidentes riscos para a saúde política de um País até agora imune a estes fenómenos.

O País não precisa do discurso do ódio que trouxe para a campanha eleitoral do PSD. Esse discurso do ódio, essa agressividade e arrogância não trazem nada de positivo para um País que sempre assumiu a tolerância como forma de estar e viver. Isto para não falar na gestão política das autárquicas: foram erros a mais. Mas, mais importante, foi o discurso que não chegou a tantos e tantos milhares de portugueses que, não gostando da geringonça, não encontraram esperança no PSD, que não falou ao centro, não falou para a classe media, não devolveu a esperança aos pensionistas, aos funcionários públicos, aos pequenos e médios empresários, conforme afirmou ao DN Álvaro Amaro, um histórico do partido e Presidente da Câmara Municipal da Guarda.

Por fim não quero deixar de abordar as eleições autárquicas na Região Autónoma da Madeira, cujos resultados não deixam de inquietar um partido que é poder nesta Região e que tem tido nos últimos anos uma grande erosão. Miguel Albuquerque também não foi feliz nas escolhas dos candidatos autarcas e saiu particularmente prejudicado com a sua aproximação a Passos Coelho. Do Chão da Lagoa fica a imagem de um homem em desespero que repetia à exaustão os não argumentos para o povo madeirense ter algumas perspectivas de futuro e justificações para um passado não longínquo.

Os resultados no Funchal são a expressão deste afastamento a um partido que já foi forte e que agora caminha a passos largos para um esvaziamento. A vitória de Cafofo foi também, é certo, a vitória de um candidato que assumiu agora, como no passado, a sua postura populista de esquerda o que não garante em nada uma gestão equilibrada e de futuro da Câmara do Funchal. O PS-M aqui não ganha estofo para encarar uma maior expressão para lutas futuras. Os madeirenses não são burros e não se deixam enganar e estou certo que em próximos actos eleitorais saberão corrigir o que agora lhes parecia uma solução credível e não demagógica. Algo de diferente tem de ser feito para garantir futuro e felicidade para as suas gentes porque é na nossa cidade, na nossa terra que começa e acaba a política.

José A. Roque Martins
Outras Notícias