A insustentável leveza do achismo

Facilitar o acesso ao ferry seria uma alternativa viável para os estudantes para quem mais ou menos um dia é menos crítico do que o custo?

06 Ago 2017 / 02:00 H.

Para quem é muito bom, cabotino, mentecapto, vaidoso, ou pura e simplesmente é impune e não tem, nem terá de prestar contas, não é necessário fazer qualquer estudo de viabilidade, sustabilidade ou satisfação antes de realizar qualquer obra ou tomar qualquer decisão que afete a vida e o bolso dos cidadãos. O “acho que” é soberano, quando muito ouvem-se umas tímidas e endogâmicas opiniões provenientes da mesma fornada do mesmo aviário de boys and girls. A Excelência achou, pronto, está achado, assim mesmo, faça-se.

Foi assim ontem, é assim hoje e, receio que se não houver uma limpeza “Tide” no beco, será assim amanhã.

Acharam que a Madeira Nova é que era bom, gastaram-se milhares de milhões, ficou-se a dever outro tanto e, em vez de fazer um estudo de custo/benefício do dinheiro gasto, fez-se um estudo milionário do deve/haver, para provar o que à partida era óbvio, que o poder do reino estava centrado em Lisboa e que TODAS as partes do reino enviavam impostos e outros recursos para a capital.

Na ordem do dia está o ferry para o Continente, decidido pelas mesmíssimas pessoas que decidiram o modelo de subsidiação para o transporte aéreo, que implica a disponibilidade imediata do custo total da viagem, situação que ainda é reforçada por não se poder diferir no tempo o pagamento através da utilização do cartão de crédito. Anteriormente na base doutro achismo, foi concessionada a ANAM à Vinci, do que resultaram as maiores taxas aeroportuárias praticadas em Portugal e das mais elevadas da Europa. Este modelo parece feito por encomenda pelas companhias de aviação, que são únicas a ganhar. O sistema de subsidiação não é feito numa lógica de poupança, como acontece em Canárias, onde o subsídio é de 50% do custo da viagem, incentivando o utilizador a escolher viagens mais baratas, porque ganham com isso. O receber os mesmos 86€ quer a viagem custe 100 ou 400€, desincentiva as pessoas a escolherem viagens de menor custo. A Everjet não se conseguiu implementar muito pelo facto de os clientes não terem qualquer vantagem pelos preços mais baixos que ela oferecia. O governante achou e assim se fez, pese embora o coro de vozes contra.

Relativamente ao Ferry, há uma série de incongruências que não fazem sentido, mas cujo processo de decisão é em todo semelhante:

Porquê a ligação a Portimão e não a Lisboa ou a Setúbal? No tempo do Armas fazia sentido porque a linha ia até Cádis, mas no atual modelo não vai. Portimão fica a cerca de 200Km de Lisboa, a capital, que é o destino mais “forte”. As pessoas e a carga rodada têm de fazer essa distância adicional à ida e à vinda, porque o Sr. Governante assim achou.

Ouvidas algumas opiniões, levantam-se à partida um conjunto de hipóteses (entre outras) que seria útil confirmar ou infirmar através de estudos sérios, para que não se decida mais uma vez na base do achismo, com os inevitáveis prejuízos para o cidadão e para o contribuinte:

Será necessário um ferry com as mesmas características durante o ano todo? O Lady of Man e o Alizur Amarillo, faziam cá o verão e no nosso inverno iam operar noutros verões, nas Caraíbas por exemplo, podendo ser substituído por outro de dimensão mais adequada e rentável? A mesma lógica poderia ser aplicável ao Lobo Marinho?

Lisboa ou Setúbal, considerando as necessidades dos utilizadores e os locais de origem da carga rodada seriam destinos mais exequíveis para o ferry?

Facilitar o acesso ao ferry seria uma alternativa viável para os estudantes para quem mais ou menos um dia é menos crítico do que o custo da viagem aérea?

Sem pretender ter feito um estudo, levantei alguns números relativos a cada um dos percursos, não fazendo distinção entre Lisboa e Setúbal por se situarem a menos de duas milhas náuticas um do outro:

Distância do Funchal a Portimão 493,4 Mn (milhas náuticas); a Lisboa 526,2 Mn; diferença + 32,8Mn

Tempo de viagem a 22Kt (nós): Funchal a Portimão 22,4h; a Lisboa 23,8; diferença + 1,5h

Custo, dividindo a distância pelo preço Funchal a Portimão 25€; a Lisboa 27€ diferença + 2€.

Não considerei a existência de corredores marítimos que de algum modo possam agravar as distâncias. Também não considerei eventuais diferenças de custo das operações portuárias dos três portos. Contudo “acho” que não serão consideráveis, mas como não sou governante posso bem ficar-me pelo achar.

Helder Melim

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