A galinha dos ovos de ouro

Sempre que o PSD esteve no poder, as condições do trabalho regrediram

22 Set 2017 / 02:00 H.

Reza a fábula da “galinha dos ovos de ouro” de Esopo, que o seu dono, farto de esperar pelo ovo diário, matou a galinha para obter os ovos todos de uma vez. Enganou-se porém, porque, no interior da galinha, só existiam ovos iguais aos das outras galinhas.

Sócrates em 2009, desesperado para ganhar as eleições, aumentou os F. Públicos em 3%, e depois foi o que se viu, Passos Coelho com a cumplicidade da esquerda, chumbou o PEC 4, impedindo a aplicação de uma austeridade mitigada, como a aplicada em Espanha, deixando, assim, abertas as portas à troica e ao neoliberalismo, o qual, em conjunto com Portas consubstanciou magistralmente a sua agenda. Para os neoliberais, o Estado deve ser mínimo, a saúde, a educação e a justiça públicos devem ser reduzidas ao máximo, o trabalho deve ser desregulado e precarizado. O objetivo do neoliberalismo é por as pessoas a trabalhar mais horas por menos dinheiro e com despedimentos sumários.

Analisando a atual situação dos F. Públicos, será para todos os que possuam um mínimo de justiça e boa-fé impossível não dar razão aos juízes, aos professores, aos médicos e aos enfermeiros, sobretudo estes últimos que não são remunerados como licenciados, mas como bacharéis, que estão com as carreiras congeladas há 15 anos e que não vêm reconhecidas as especializações, aliás como acontece com os professores, congelados desde a mesma data, que igualmente não vêm remuneradas as suas especializações como a da Educação Especial, as suas pós-graduações, mestrados e doutoramentos. Quanto às demais profissões da F. Pública, não me pronuncio, por não ter um conhecimento exato das suas dores.

Sempre que o PSD esteve no poder, as condições do trabalho regrediram. Alegam os enfermeiros que as carreiras foram congeladas há 15 anos. Se recuarmos 15 anos chegamos a 2002 onde o primeiro-ministro era Durão Barroso. Os principais atentados às condições de trabalho, aumento de impostos, perda de subsídios, sobretaxa de IRS e outros “primores” do mesmo jaez, contudo, são da responsabilidade exclusiva de Passos Coelho que os perseguiu com tanto afã que, inclusivamente, declarava querer passar além da troica. Tenho uma especial simpatia pessoal pela classe dos enfermeiros, cujo empenho, dedicação e competência atesto pessoalmente em múltiplas situações. Não confundo porém as pessoas com organizações que os instrumentalizam, e que, ao invés de estarem do lado da “caça”, como lhes competiria, estão do lado do “caçador”, embora finjam o contrário. Só por engano ou distração podem os trabalhadores concordar com as políticas neoliberais, que são diametralmente opostas aos seus interesses.

Durante todo este tempo, os enfermeiros, à semelhança dos professores, mantiveram-se globalmente cordatos, salvo erro, com exceção duma ou outra greve, no meu entender mais do que justa, como a que foi feita, por exemplo, pelos enfermeiros, contra o excesso de trabalho e a exaustão dos profissionais.

Até há dois anos atrás tudo estava bem em paz, no imenso laranjal. Havia um presidente, uma maioria parlamentar, um governo. Uma Ordem e dois sindicatos comungavam do mesmo ideário e concordavam com a práxis. Aparentemente as situações, objeto das atuais reivindicações não existiam até este momento. À medida que as medidas foram sendo sistemática e paulatinamente impostas e agravadas pelo PSD/CDS, não houve greves, nem manifestações históricas. Onde estiveram os sindicatos?

Eis senão quando, temos uma geringonça de esquerda, sensível às questões do trabalho e dos trabalhadores, que devolveu ainda que de forma tímida e titubeante, impostos, subsídios, que integra precários e preenche quadros de pessoal, e que, para além disso já fez saber ao FMI que não vai prosseguir com as solicitadas reformas estruturais e que publicamente, assumiu o compromisso de, atempadamente, reverter todas as medidas neoliberais de Passos Coelho, na medida que a sustentabilidade o vá permitindo.

De repente tudo rompe-se a paz, os sindicatos do PSD, acordam da sua letargia, e, queremos tudo e já. A Ordem, na mesma lógica, abandona prontamente a sua obrigatória

reserva e assume sem qualquer pudor competências sindicais. Nesta lógica quando estiverem em questões éticas e deontológicas, quem se pronunciará? Os sindicatos? Alguém no futuro levará esta Ordem a sério?

Será que os enfermeiros acreditam que é possível e sustentável satisfazer todas as suas revindicações (que como já afirmei anteriormente, considero justas e urgentes) de imediato? Ou então será que querem ver satisfeitas apenas as suas e as demais profissões da F. P. que esperem?

A satisfação imediata das justas revindicações laborais de toda a gente, sem que haja um rateio compatível com o desenvolvimento da economia, para além de não estarem inscritas no orçamento deste ano e como tal não haver dinheiro para o efeito, agravaria significativamente o défice e a dívida pública, com as consequências que todos sabemos e ainda vivemos. Será que os enfermeiros têm saudades da troica ou já se esqueceram como era e ainda é? Ou não será antes uma manobra oportunista do imenso laranjal (PSD, Ordem e sindicatos) com objetivos eleitorais?

Esta situação serve principalmente ao PSD, que, na senda dos comportamentos e atitudes de “bota abaixo” sistematicamente assumidas por Passos Coelho, almeja que “venha o diabo” para o país se dê mal, e lhe permita sair do estado de negação e ressurgir com a sua bacoca bandeira na lapela (à Trump) como “salvador da pátria”, para poder completar a sua obra de restringir, precarizar e privatizar o pouco que ainda resta do Estado.

Com todo o respeito e reiterada consideração pelos enfermeiros, não entendo como é que uma imensa maioria de pessoas capazes, dedicadas, sérias, inteligentes e lúcidas dançam ao som dessa música. A posição do SEP tem outra lógica, pois está mais interessado na satisfação da clientela da CDU, em ganhar espaço negocial no O.E. e não perder o comboio reivindicativo em que, pasme-se, a locomotiva não é ela, mas o PSD.

Helder Melim

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