A Festa e o banho de realidade

dfd

11 Dez 2017 / 02:00 H.

Quando pego na caneta - gosto primeiro de manuscrever - confesso que na maior parte das vezes não sei para onde ela me encaminha. Mas ela apega-se aos dedos, e por vezes até parece que tem vida própria. E há ideias que vão fluindo na medida do devir, do que vai acontecendo, do que se vai sentindo numa catadupa de ideias. Em Dezembro com as luzes, e todo o caleidoscópio festivo em que se transforma a minha cidade, sinto a tentação de largar da mão, a espuma dos dias e os temas do quotidiano. Aliás, todo o sucedâneo do imediatismo diário varia a toda a hora, e o sentido de actualidade tem um prazo de validade cada vez mais efémero, e consequentemente é menos interessante em dissecar qualquer pensamento estruturado, pois tudo se torna cada vez mais volátil.

Há no Natal um ritual de cores, sons e sabores que são (ou deviam de ser), o reflexo do que vai (ou devia) acontecendo no nosso interior na relação com os demais do presente, e daqueles que povoam a nossa memória. O caleidoscópio de luzes e animação das nossas praças, avenidas, ruas, ribeiras e jardins relembram a nossa Festa, bem como a vertente religiosa das missas-do-parto e a recriação da natividade do Menino-Rei, com as lapinhas, presépios e pinheiros enfeitados das nossas casas.

O Natal impele-nos também para um balanço do ano. E há análises para todos os gostos, consoante as experiências pessoais que cada um viveu. Pessoalmente estou desejoso de agarrar o novo ano, não com uma fundada esperança, mas sobretudo pela soberba vontade que este calendário vire rapidamente de página.

Há todavia alguns sinais de mudança no horizonte no que respeita ao nosso colectivo enquanto comunidade, mas a generalidade dos madeirenses na prática vão continuar privados dum efectivo “diferencial fiscal” em relação aos demais portugueses do continente. Há vontades mas poucas concretizações, na velha questão do preceito constitucional do “princípio da continuidade territorial” que os portugueses insulares devem usufruir, devido à sua condição de ultraperiféricos, no que concerne ao procedimento do benefício do subsídio de mobilidade. E nessa nossa condição, há sempre uns tipos do continente (esses sim, ditos “cubanos”), como o tal administrador da TAP Lacerda Machado (um cão fiel de António Costa), que afirmou que as reivindicações dos madeirenses em relação à TAP, são puro “entretenimento”. Continuamos sob o manto da opacidade discursiva na questão do novo hospital da Madeira, no respeitante aos míticos 50% com que a República em ziguezague ao longo do tempo, vai reescrevendo conforme a direcção do vento. Até o Cafôfo tão expedito e voluntarioso para as notícias côr-de-rosa, e que só ambiciona governar a Região, enclausurou-se à margem do Parlamento Regional - que é o primeiro órgão de soberania da Região - para não prestar declarações perante o Povo representado na Assembleia Legislativa Regional sobre a tragédia do Monte que vitimou treze pessoas.

Este último parágrafo para além de ser um pacote reivindicativo, poderia muito bem ser uns pedido de Natal para colocar no sapatinho, mas que infelizmente ano após ano, na essência pouco mudou, e continuamos atrelados a um role de promessas que pouco descolam da retórica.

P.S. As ribeiras vão ficar coloridas, engalanadas, mas abaixo do Campo da Barca, o varandim retorcido e umas barreiras de betão (eternamente) provisórias, são um triste memorial da destruição de 2010, sem que aparentemente ninguém por isso se indigne, perante a evidente apatia dos poderes públicos.

Boas Festas!

Donato Macedo

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