A era dos “sozinhos em casa”

19 Mai 2017 / 02:00 H.

Vivemos numa sociedade em que o desenvolvimento, desenhado pela revolução tecnológica, pelas novas formas de comunicação e de informação, atingiu a rapidez e a incerteza suficientes para ultrapassar a nossa capacidade de adaptação aos novos desafios, pois, as realidades correm nas mais imaginárias direções e quase tudo ao mesmo tempo. Como consequência, a sociedade transformou-se profundamente, organizando-se numa linha de progresso que abalou, em definitivo, as estruturas familiares.

Os ritmos e as exigências profissionais, os horários sobrecarregados, instáveis e precários, do mundo laboral retiraram aos pais e às mães os momentos fundamentais para a educação dos seus filhos, numa idade em que ainda estão a construir a sua personalidade, a tentar perceber os seus espaços e a interiorizar as regras da autonomia pessoal. Nesta conjuntura, demasiadas crianças, jovens e adolescentes ficam sozinhos em casa, a gastarem as horas no desconhecido da web, em plena anarquia, à espera do turno das aulas ou depois da escola terminar, enquanto os seus pais trabalham. Embora, em muitas circunstâncias, apesar da presença dos pais, continuem sós, num canto do sofá da sala sem chatearem, ou fechados no quarto, mesmo durante o dia e pela noite fora, em clara negligência dos familiares, entregues ao aconchego de um computador e/ou telemóvel ligados a uma internet sem regras nem limites. Criam-se deste modo, as condições para estes filhos e filhas assumirem comportamentos impensáveis tais como enviar aos amigos fotos com o corpo totalmente nu, marcar encontros com estranhos através da net, publicar no facebook vídeos, informações confidenciais e íntimas, integrar grupos que praticam o cyberbullying, aceitar jogos que promovem a automutilação, entre tantas outras leviandades. Normalmente, quando os pais são confrontados com alguma destas “peripécias”, em vez de refletirem sobre as verdadeiras causas e pedirem ajuda especializada, limitam-se a responsabilizar a escola e os filhos dos outros. É de ficar pasmado, mas acontece com frequência.

Hoje, mais do que outrora, tentando evitar estas situações bastante desagradáveis, as mães e os pais têm de estar mais atentos ao mundo virtual por onde os seus filhos navegam, garantindo um acesso fácil ao que estão a fazer, investindo num diálogo aberto sobre a internet que, com as suas potencialidades inesgotáveis escancarou para sempre as portas do cantinho reservado das nossas casas, sem discernir os aspetos positivos e úteis dos prejudiciais e perigosos.

Rui Caetano

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