A crise de meia idade

Não pense o leitor que são sempre rosas! Ele há dias horríveis! Ainda me lembro bem do último

15 Fev 2018 / 02:00 H.

Olhou-me de cima abaixo e, com a maior das impertinências, mas também com uma inocência e pureza de adolescente, perguntou candidamente: “João, estás com alguma crise de meia idade?”

Naquele espaço entre o aperceber-me da pergunta e a minha reacção, pude sentir claramente algo a desenvolver-se na minha mente, mas com estranhas repercussões nas minhas entranhas. Não era um sentimento de cólera, mas também não era propriamente algo agradável. Na dúvida, optei por amuar, virar-lhe as costas e rosnar entre dentes: “Já não há respeito!” Só faltou indagar se havia tomado os comprimidos de manhã!

Olhei então para mim. Sapatilhas, calças de ganga, t-shirt e camisola de capuz... Esta é a minha roupa, mas afinal, que faço eu?

Engenheiro? Ainda consigo somar um mais um, mas pouco mais do que isso.

Velejador? Consta que me reformei dessas lides. Apesar de ter recaídas.

Treinador? Mas se quando vou para o mar com miúdos e graúdos, divirto-me tanto ou mais do que eles?

Então que faço eu? Não consigo especificar, mas por estranhas artes, os dias passam a correr e quando me deito todas as noites, invariavelmente caio redondo e exausto...

Depois pus-me a pensar nos meus amigos, muitos deles a caminharem, como eu, violentamente rumo aos cinquenta. Só espero que tenham a felicidade de ir para o trabalho com a mesma alegria que experimento diariamente.

Não pense o leitor que são sempre rosas! Ele há dias horríveis! Ainda me lembro bem do último. Foi há precisamente quatro anos! Lesão nas costas, dores e mais dores, e um prognósticos médico a recomendar um descanso ao corpo para sempre. Só por birra, fui a Terras de Vera Cruz levar a bandeira de Portugal!

Também fico com azia quando vejo sinais de que ainda não percebemos bem o que é isso de cultura de mar, nem de que forma é que podemos e devemos amar a nossa preciosa ilha e o oceano que nos rodeia.

Certo, certo, é que todos os dias, sinto que aquilo que desenvolvi durante três décadas, paulatinamente, vai sendo derramado, fazendo com que a roda da vida continue a girar. Seja quando partilho momentos únicos com jovens e homens do mar, seja quando, através da Comissão de Atletas Olímpicos, à qual tenho a honra de presidir, ajudamos a construir sonhos Olímpicos, ou ainda, quando tenho o privilégio de contar a minha história numa qualquer escola do país.

Assim, e por estranho que possa parecer, parece haver lugar para mim. Continuo a viver num mundo paralelo, alienado da vida real? Talvez. Estou com uma crise de meia idade? Se sim, mal posso esperar pela andropausa!

João Rodrigues