A banalidade como regra

Nunca como agora, no meio do actual desconcerto, foi tão necessária a reflexão política

13 Out 2018 / 02:00 H.

Há sempre nos nossos serões televisivos algumas surpresas. Há dias seguia atentamente, na SIC, as noticias de Tancos, o homicídio de Cheleiro e o debate na AR com o governo quando de uma forma surpreendente os apresentadores de serviço anunciaram que, a seguir, iríamos assistir a um debate com o Presidente da Câmara Municipal do Funchal, Paulo Cafofo, sobre Turismo. Aconcheguei-me no sofá e puxei pelo café pós jantar aguardando por tão douto acontecimento. Não conhecia que Cafofo era um expert em tal matéria mas, às vezes a nossa memória atraiçoa-nos.

O debate começa com um dos apresentadores a justificar, naquela hora nobre, a presença de tão “ilustre” figura. Paulo Cafofo iria, no dia seguinte, a uma conferência em Lisboa fazer uma intervenção sobre o turismo na Madeira e, por isso, se justificar tal presença.

Mas Cafofo falou muito pouco, ou quase nada, sobre o turismo na Madeira e apenas culpabilizou Miguel Albuquerque pelos maus resultados dos últimos cinco meses que apresentam um saldo negativo de 3% em termos de procura e que o Governo Regional tinha que assumir estas responsabilidades porque não tomou medidas preventivas para ultrapassar o sucedido.

Depois desta “brilhante”, conclusão e até ao fim do programa, falou da sua “inquestionável” candidatura pelo PS às próximas eleições Regionais. Possivelmente, naquela altura, o “Zé Pagode” questionou quem é este maduro com ar de imbecil e arrogante que se afirma, contra Miguel Albuquerque, o Presidente do Governo Regional da Madeira.

Eu explico: Cafofo, a falar, lembra-me uma frase de Machado de Assis que vem muito a propósito: “ O ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida; algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento”.

Acresce dizer que Paulo Cafofo não tem nem preparação política nem cultural para o exercício das funções a que se candidata por convite de António Costa. Já não falo na falta de ética bem patente no acidente nas Festas da Senhora do Monte, no ano passado. Incrível.

Neste caso, a principal perspectiva social e politica que temos actualmente, o nosso principal desafio é, a meu ver, levar a cabo uma política inteligente e reflexiva, colocar a política à altura das suas exigências que uma sociedade como a madeirense levanta e Paulo Cafofo é totalmente incapaz. Ora bem, pergunto-me, se é possível pensar no meio da política? Desde logo não me parece ser essa a atitude própria da maior parte dos actores políticos dominados por uma agitação superficial e especialmente submetidos à ditadura do imediato, como o nosso “aprendiz”. No fundo porém, todos sabemos que com o activismo não se combate a perplexidade, apenas se dissimula.

A actual perda de credibilidade dos políticos deve-se menos à corrupção que atenta contra as regras da moral privada que a vetustez dos procedimentos políticos em cenários que dependem de tarefas históricas novas. O problema não é a carência de virtudes, mas sim o saber escasso, a indecisão e a rotina, a falta de consciência das novas responsabilidades que as mudanças sociais e políticas acarretam consigo. O caso madeirense é paradigmático.

Miguel Albuquerque não está isento de culpas pois as suas escolhas nem sempre foram as mais acertadas, tanto no executivo como nas autarquias. A própria vitória de Paulo Cafofo no Funchal é fruto de péssimas escolhas e de uma grande fragilidade no discurso político.

Não podemos esquecer que cresceram as expectativas em relação à acção política no que se refere às consequências das decisões adoptadas. Com a ampliação do horizonte das responsabilidades no que toca ao que é objectivamente possível numa sociedade como a madeirense, ao que pode conseguir-se ou perder-se por desatenção ou indiferença, a política ganhou uma nova dimensão moral específica.

As propostas de regeneração da vida democrática não precisam tanto de iniciativas legislativas ou de reformas da administração como de recuperar uma visão estratégica de longo prazo. Não estamos numa fase de promessas eleitorais mas sim de grandes projectos que resultem de um amplo debate social. Nunca como agora, no meio do actual desconcerto, foi tão necessária a reflexão política, se é que ainda almejamos superar a ditadura do instante (o novo nome do populismo) e impedir que a política resvale para uma situação (no melhor dos casos) do imediato.

E por isso, há dias, eu escrevia: “Noutras épocas pensar talvez fosse uma perda de tempo, na nossa - quando não podemos contar com a estabilidade de âmbitos e conceitos, nem confiar confortavelmente nas práticas consagradas – pensar é uma forma de ganhar tempo, um modo radical de actuar sobre a realidade” – e os madeirenses não podem perder tempo...

José A. Roque Martins
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