A abóbora e a pevide

Na gaveta das minhas memórias de infância há um mapa secreto que me leva a uma terra de nevoeiros e nortada

10 Ago 2018 / 02:00 H.

“É sempre por um mapa secreto que se chega ao coração de um lugar”. Assim se intitulava a comunicação que o poeta madeirense Tolentino Mendonça proferiu numa das conferências anuais que a Ordem dos Economistas dedicou ao turismo. Socorrendo-se do testemunho de escritores e poetas – Herberto Helder, António Nobre, Rimbaud, Verlaine – Tolentino citou Raul Brandão: “detesto o turismo, e adoro a hospitalidade”. Querendo, talvez, fazer-nos crer que mais importante que o negócio é, por certo, essa generosa face da cortesia humana a que a Grécia Antiga chamava xenía e que, mais tarde, os evangelhos traduziram por hospitalidade. “Era forasteiro e me hospedaste” – acolher o hóspede ou o forasteiro é acolher a Cristo, reza a Bíblia.

Vem isto a propósito da amena conversa que tive sobre turismo com o poeta João Carlos Abreu num programa da RTPM moderado pelo jornalista Paulo Santos. João Carlos atribuiu à proverbial hospitalidade do povo madeirense uma das razões de sucesso do arquipélago como destino turístico. Tem toda a razão. Só quem nunca foi maltratado e mal servido por um empregado de mesa parisiense o poderia negar. Depois, teceu também algumas considerações sobre o que considerou ser outra profícua faceta do madeirense: a alegre e cordial expansividade que o leva a desabrochar, durante todo o ano, em festas, romarias, carnavais e eventos que, providencialmente, vão colorindo o “cartaz turístico” da Região e enchendo os hotéis.

Nascido na Póvoa de Varzim, a mais sazonal de todas as estâncias balneares portuguesas – e porque não dizê-lo, talvez a mais parola – vieram-me então à memória algumas das considerações que o meu conterrâneo Eça de Queiroz – esse outro “pobre homem da Póvoa de Varzim” – teceu, na Campanha Alegre, sobre os brasileiros. Para Eça os brasileiros eram, simplesmente, a expansão do português que, sob o calor dos trópicos, florescia, desabrochava e alastrava em cachos de festiva alegria. “Eles estão já acabados como a abóbora, nós embrionários como a pevide. O Português é pevide de Brasileiro!”.

Aventei então a hipótese de o madeirense, sob o calor ameno dos sub-trópicos, se situar a meio caminho entre uma coisa e outra, isto é, entre a pevide e a abóbora. Uma courgette? Uma abobrinha? Uma pimpinela? Nenhum de nós foi capaz de escolher o género hortícola que melhor representasse a alegre expansividade do coração madeirense. A verdadeira questão ficou, portanto, sem resposta: como desvelar o coração de um lugar, que o mesmo é dizer, o coração de uma comunidade humana? Existirá, sequer, esse coração? A romântica ideia de que todas as comunidades contêm um núcleo, ou uma essência imutável, que pode ser desvelada (e, quem sabe, até preservada) terá algum cabimento?

Duvido. Na gaveta das minhas memórias de infância há um mapa secreto que me leva a uma terra de nevoeiros e nortada, terra de gente agreste e pouco hospitaleira que – cito Raul Brandão – “vivia e morria no mar”. Essa gente, porém, já não existe e os seus filhos vivem hoje afeiçoados a outras formas mais lucrativas e civilizadas de vida. O meu mapa secreto já de nada serve, senão para me perder num labirinto de saudade e vãs elucubrações.

Rui Campos Matos
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