Ufa! Afinal há mais cultura para além das capelinhas

23 Mai 2016 / 02:00 H.

Na Madeira, ao longo destes anos, assiste-se a uma contínua aposta na recuperação do património religioso em detrimento de outras áreas culturais consideradas fulcrais para o desenvolvimento da região. De forma alguma está aqui em questão a importância do património religioso porque este também faz parte da nossa cultura muito embora não seja de todos nós, pois pertence ao património do Vaticano. Ao contrário outros bens culturais em evidentes estados de degradação e consequentemente com necessidade de reparação. O que está em causa são as desigualdades e os desequilíbrios que ao longo destes anos se gerou nas diferentes áreas da nossa cultura. Compreendo que este investimento tenha sido uma estratégia política de angariação de simpatias em especial daqueles que dominam o povo cuja a falta de sabedoria, em especial na gestão irracional do medo, é uma estratégia há muito implementada no culto religioso.
O investimento na área  cultural deverá ter como principal objetivo a construção de uma sociedade mais justa e equilibrada,  com novas mentalidades e com um maior grau de conhecimento capaz de contemplar e interagir  com as diferentes experiências culturais.
Na pitoresca vila da Ponta do Sol, das poucas localidades rurais onde se sente  e respira uma cultura enraizada, assisti recentemente  a uma peça de teatro no Centro Cultural do John dos Passos e presenciei  um auditório repleto, na sua maioria pessoas da localidade manifestavam o 
prazer pela cultura de uma forma genuína.
É com alguma satisfação que verifico um maior interesse pelas diferentes artes e sinto que ainda existe um longo caminho a percorrer porque contrariamente a este cenário constato que continuam a existir as típicas tentativas dos diferentes lobbies regionais  em controlar as manifestações culturais ligadas  ao poder instituído ao longo destes anos e que, por vezes, acabam por prejudicar  e desvirtuar o rumo no desenvolvimento cultural como se este fosse só  objeto de merecimento por parte  de alguns ditos ilustres da nossa região ignorados além fronteiras.
 Quem possui estes cargos de chefia deveria justificar a sua boa remuneração como responsáveis pelo rumo da gestão cultural e promover a cultura nas diferentes áreas do saber e, no que diz respeito ao património, incidir a sua ação na realização de um inventário exaustivo, registando  todos os nossos monumentos edificados e classificados de interesse público (e não de interesse de alguns) em estado de degradação mais avançado  para posterior recuperação de acordo com a ordem de critérios bem definidos e transparentes?!, inclusive através da auscultação da população local ao qual o imóvel está associado.
Recentemente foram distribuídos vários apoios a diferentes instituições culturais da região (ainda bem!), mas no entanto verifico que na área das artes plásticas não existe qualquer tipo de apoio ou incentivo notando-se a falta de estruturas de sustentabilidade nesta área cultural ou mais grave o seu desinteresse.
Concordo que  o sector cultural não esteja só na rua dos Ferreiros e no meu entender muito menos nas capelinhas mas sim onde houver uma predisposição de uma autêntica vontade na aposta cultural de forma esclarecida e organizada.
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Patrícia Sumares